segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Décimo sonho

 Foi então que, de súbito, o mar. Até aquele dia eu me contive, melhor dizer que naquele tempo já aprendera a me conter. A viagem foi esperada, sonhada, ansiosamente preparada. E por todo o tempo recusei-me terminantemente a imaginar o mar. Proibi-me. Os mais apressados dirão que me protegia de possível desapontamento. Afinal, o mar habitava meu sonhar antes que eu abrisse os olhos. Estão errados. Impedi-me de pensar o mar por respeitá-lo. Decidida minha visita, definida minha apresentação pessoal a ele, deixei de sonhá-lo. Era preciso respeitá-lo e me preparar para o encontro com dignidade e decência. Assim foi. Cheguei elegante e séria, era fim de tarde, eu estava cansada da viagem, mas respirei fundo – aspirei seu cheiro profundo e ácido – e caminhei atravessando as dunas. Suspendi a respiração, ordenei ao meu coração que parasse, ao cérebro que se desligasse, e bem abri os olhos. Estava frio e ele surgiu em cor pastel; não havia mais nada... Nem céu, nem sol, nem lua ou estrelas. Não havia ninguém. E o tempo também não estava ali. Havia eu e um gigante triste e imóvel. Ele me disse ‘triste’ e eu entendi ‘espere’. E ali parei. Estacionei. Plantei-me. Séculos depois acordei de mansinho vendo uma pequena bolinha amarela soltando compridos raios fininhos que riscavam o espaço e morriam numa imensa piscina azul... Piscina imensa! Sorri, a piscina dançava e cantava, e então eu dei 'bom dia, mar, muito prazer’, e ele disse ‘bom dia, o prazer é todo meu, chega mais’... Eu dei risada e disse que ainda era cedo, claro que menti, de fato eu tinha um medo, sentia o vento que era forte, então me justifiquei ‘começou a ventar’,  mas mesmo tempo, meu coração não quis obedecer-me mais, soltou-se, criando verdadeira batucada em meu peito. O mar, deus que é, soube minha mentira, e bondoso, como todo verdadeiro deus, desdobrou-se, rolou até meus pés e obrigou-me a arrepiar inteira. Tudo foi azul (ou seria verde?), com bordados em cores diversas. Tudo foi luz, com calor de mãe. Entreguei-me e me lembrei http://www.youtube.com/watch?v=C0rYfHkRv6s&feature=related ... E pensei ‘agora a montanha terá que vir a mim’. 

Magda Maria Campos Pinto

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