segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Décimo terceiro sonho:


 Noites escuras, horas infinitas, silêncios duros. As pessoas iam e viam, se atropelavam, riam, brigavam, e nada me diziam. Ou melhor, todas as pessoas falavam coisas pra mim e de mim. Eram ordens, testes, profecias. Mas nada me diziam. Eu andava pelas ruas, entrava nas casas, via o mundo, mas não existia. Tentei amar, abusaram de mim. Eu não existia. Tentei fugir, me capturaram. Prometi fazer parte, seguir o roteiro, confessar, cumprir os dez mandamentos, não mentir, ficar rica, famosa e honrar a família. ‘Não faz mais que a obrigação’. Eu não existia. Decidi não existir caminhando e peguei a estrada. Não quis carona, nem mapa nem rumo. Recusei a mochila, a causa, a fé e  corpo de bailarina. Quis não existir à minha maneira. 

Atravessei a primeira cidade, aprendi a primeira mágica e me tornei cirurgiã. Segui a caminhada e encontrei a segunda cidade. Continuei andando e aprendi outro encanto, falei abracadabra, derrubei portões e atravessei o primeiro deserto. Desembainhei uma espada e perdi um braço, encontrei um rio e me joguei nele. Não aprendi a nadar, mas consegui não me afogar e me aportei numa floresta. Respirei fundo, levantei-me e continuei meu caminho. Sentia-me mais leve. Onças, serpentes e aves de rapina não me importaram. E fiquei amiga dos lobos. A estas alturas, já me sentia inteira e sabia não existir. Quis não mais caminhar e me plantei no meio da floresta. Foi então que decidir cultivar flores. A primeira nasceu escura e gostava de se desmanchar enchendo os ares de perfume amargo, com gosto de saudade. A segunda era branca, grande, forte e seu perfume tinha gosto de futuro. E é por isso que estou aqui, ao  lado dela. E tudo é espera.

Magda Maria Campos Pinto
 

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