terça-feira, 23 de agosto de 2011

Drummond como nunca se viu

 O livro entre os dois 

Um conselho da sabedoria universal recomenda secamente: Não empreste livros. As razões são óbvias: Livro emprestado quase nunca volta à estante de onde saiu. Ou se volta é uma tristeza: faltando páginas, e com outras cheias de comentários a lápis. Esses comentários constituem mesmo uma subliteratura muito usada entre nós: o papel e a mão-de-obra tendo atingido a preços proibitivos, não há remédio senão irmos publicando os nossos pensamentos à margem dos pensamentos dos outros, e na mesma edição que os outros. Este, o ponto de vista dos inúmeros escritores em busca de um editor. O ponto de vista do possuidor de livros difere muito do primeiro. Trata-se de defender os volumes contra a sanha dos amigos gratuitos da leitura. O remédio é não emprestar. “Não empreste livros”, diz a sabedoria popular. Eu acrescentaria: ”Não empreste livros... aos homens”.

Porque para as mulheres é diferente. Há um prazer sutil, e que nenhum espírito bem educado deixa de sentir, em confiar a mãos e olhos femininos um livro que nos comoveu ou nos fez pensar. É um vínculo que se estabelece entre duas criaturas, e não é um vínculo perigoso como o do casamento ou qualquer outro contrato social, com multas estipuladas para as infrações. Será, antes, uma cumplicidade do que um vínculo: são duas pessoas a guardar o segredo de um livro bonito, em um país de analfabetos. Sem falar na satisfação que nos dá a descoberta de um outro espírito, feita lenta e deliciosamente, à custa de um simples e inofensivo intercâmbio de leituras. Cada poeta ou cada romancista que propomos vai desenhando o gráfico de um temperamento que, muitas vezes, resulta igual ao nosso, e no qual o nosso afinal se contempla, com essa breve e indefinida volúpia que há em a gente se encontrar nos outros seres. E tudo isso, repito, à custa de um simples empréstimo de livros, confessemos que é uma das claridades da vida.
A mulher, por muito pouco ou por demasiado inteligente que seja, absolutamente não escreverá bobagens ao lado das palavras que os livros encerram. Não arrancará folhas deles, e pode muito bem ser que lhes acrescente, não digo outras folhas, mas um certo e determinado perfume, ou suspeita de um perfume feminino, que por sua vez homem nenhum, por mais constipado que seja, deixará de aspirar como um cheiro positivamente bom de se cheirar.
Resta uma dificuldade a  considerar, e é a da escolha ou melhor, da dosagem desses livros. Alguns técnicos com quem tenho conversado aconselham a marcha do simples para o complexo, de Delly e José de Alencar para Anatole France e Jean Giraudoux. Outros são do golpe da violência: os autores de Kra, da N.R.R., da Grasset; os modernos ingleses e espanhóis logos ao primeiro ataque.
Entre as duas correntes, cada uma delas com as suas razões e os seus pontos de vista, eu passeio a minha indecisão e a minha terrível vocação para a ‘gaffe’, que me faz sempre emprestar o livro que não devia à moça que não me pediu....

Carlos Drummond de Andrade in Crônicas – 1930-1934, Belo Horizonte, 1987. (publicação especial da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais, em colaboração com o Banco do Desenvolvimento de Minas Gerais. Pesquisa de Hélio Gravatá das crônicas de Drummond, escritas nesta época sob os pseudônimos de Antônio Crispim e Barba Azul).



p.s: Eu  nunca li Delly, já comecei de Anatole e cia;  rabisco sim bobagens em meus livros e, por isso, não posso emprestá-los, obedecendo assim à sabedoria popular e desmentindo aquele Drummond, mas já saboreio aqui toda a delícia e a malícia que vinha por ali.... Uma vez Drummond, sempre Drummond. Amém.

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