segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Inaugurando a gosto: Primeiro sonho


Deus media mais ou menos três metros e meio de altura. Vestia túnica larga e solta até os pés e usava sandálias franciscanas. Os cabelos eram castanhos, em cachos que chegavam aos ombros e não se desmanchavam com os ligeiros meneios que, vez em quando, ele fazia. A cabeça era igual a de um anjo barroco mas a barba – sim, ele tinha barba longa bem aparada – lembrava a barba do meu tio, a quem eu amava. A boca e os olhos, eu não me atrevi espiar, mas, eu adivinhava que era uma cara tranquila e cheia de promessas. Majestoso, ele mantinha o voo solene, e silente. Caminhava nos ares a partir do horizonte à nossa esquerda, saindo de trás da serra da Pontalua em direção ao horizonte da nossa direta, atrás da serra do São Bento. Na mão esquerda, levava uma lata de tinta azul e na direita um pequeno pincel feito com fios de crina de cavalo. Por um instante parei pensando em como eu sabia que o pincel era de cabelos de cavalo. Só por um instante, pois, com um gesto bem delicado, ele riscava no céu um traço azul, de horizonte a horizonte, usando o pincel. Além do risco, o mundo não tinha cor. Fascinei no azul. Abandonei o mundo. E apesar do medo, da fome, da angústia, da culpa de separar-me de todos, segui. Só queria o azul.
Foi com um de seus pequenos movimentos de cabeça que ele avisou-nos que, ao final da pintura, o mundo iria acabar e que então iríamos todos para o juízo final. Nem liguei; as pessoas que se amontoavam nas ruas, assustadas com o espetáculo de Deus, começaram um pânico. Gritavam, choravam, gemiam e berravam: ‘não, não, queremos o mundo’. Eu, nem tchum, só no azul. Fizeram orações, organizaram procissões e passeatas. Buscavam mágicas que atrasassem a pintura. Discursavam, lutavam, matavam; fizeram assembléias e ciências. Eu não entendia a bobagem daquele pânico, aquela algazarra feroz. E nem desejava entender; apenas visava o azul e o pintor maluco, que apesar dos pesares e da barulheira, seguia sereno sua pintação.
Depois, eu pensei, trinta anos depois, as pessoas continuavam em pânico, tentando atrapalhar a arte. E eu, mergulhada no azul, aguardava o cumprimento da promessa.

Magda Maria Campos Pinto

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