sábado, 13 de agosto de 2011

Nono sonho


 As manhãs eram sempre frias, e o caminho ficava sempre bloqueado pela névoa; eu andava atravessando as cortinas brancas de um inverno eterno. E a caminhada não levava a destino de maior aconchego. Ao chegar, a névoa se tornava chuva torrencial, choviam palavras que eram ordens, mandados, exigências. Entre as tempestades eu tentava me abrigar. Entretanto, muitas vezes, me afogava. Submersa, apenas seguia seguindo os comandos, navegava entre letras que nunca formavam algum sentido. Hibernava. A corrente me dominava, e eu cedia tentando não ser apenas frio. Vinha uma cachoeira e despencava em grosserias e mal tratos.



Quando o cansaço era infinito eu aportava uma ilha, e apesar do isolamento, descansava. Eu lia, e assim procurava ordenar a torrente de palavras que era mandado, transformando-a, refazendo, fazendo outra vez...


Com o tempo, passei a passar mais tempo nas ilhas, a escapar com freqüência da corrente. Aos poucos, começar a fazer da torrente poesia, e inventei arquipélagos. Depois, com cuidado e solidão, construí pontes.

Assim, um dia refiz um mandado: ‘Foi então que ela disse que eu era um anjo. Olhou-me nos olhos com aqueles seus olhos imensos de mel puro. Foi então que se descobriu inteiro meu ser totalmente humano. Minha profundidade abismal revelada: humana em essência revivi num átimo a dor da juventude na faculdade, a perdição no lugar onde se esperava que eu me encontrasse, o horror das práticas arrogantes, a perplexidade de não me ver em lugar algum e, daí, a tristeza de raiz que em mim se plantou. A tristeza de saber que queriam apodrecer meu íntimo ser. Não! Aquela menininha linda e pura, duramente violentada pela não vida, me enxergara, e enfim, me mostrava a mim.’



E de ponte em ponte, de ilha em ilha, segui reinventando continentes, como naquela noite em que escrevi: ‘Mi corazón desconsidera el llamado de la razón. Me vuelvo a ti. Tengo tu voz, es decir, un cierto tono de voz. Algo dulce. Un tono de poesía. Me acuerdo bien. Tengo también tus ojos: pequeños y claros, muy pequeños y casi transparentes. Inocentes; puedo decir, angelicales. Esto es todo. Y me encanta aunque que esto sea casi nada. Es un absurdo: ¡casi nada y a mí me gusta! sí, ‘allá me voy como un tolo… nuevos días tristes, noches claras, versos, cartas…’.


Naquele tempo, eu comecei a ter filhos… e os caminhos eram pontes para outros universos.

Magda Maria Campos Pinto

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