sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Oitavo sonho


 Era madrugada. A cidade estava deserta, e eu me lembrava que antes estava repleta de pessoas. Seria uma festa. Ou uma guerra. Difícil decidir. Havia muita gente caminhando daqui pra lá; de lá pra’qui. Havia procissão, reza, velas e murmúrios. E também havia bombas. E tiros? Impossível decidir. Eu me lembrava ainda de cores vivas, vermelhos, muitos vermelhos. Talvez fosse sangue. E mais, risos, pilhérias (que palavra é esta? E me lembro do meu avô, pilhérias... parece o meu avô, aquele do qual me esqueci). E penso que este deserto de agora se deve ao meu esquecimento. Esqueci de todos.
 E não consigo saber se quero me lembrar; esqueço tudo e continuo a caminhar apesar de. Está escuro, as ruas estão molhadas, tento me consolar buscando Vinicius de Moraes falando de amigos, de poças d’água e ruas desertas... Em vão, meu medo é maior. Começo a tremer. Foram-se todos; percorro caminhos bem conhecidos, todos estranhos, sombrios. Sinto-me sombra. Quero doer. Quero gritar. Sei lá, eu quero qualquer coisa que movimente esta persistente estranheza. Caminho, mas não reconheço nenhum movimento. Tudo está duro, é pedra. Quero ser voz e não consigo me mover. Caminho sem pra’onde. Resisto; busco em mim força de entranhas. E então, lágrimas começam a correr. Me salvo.
Magda Maria Campos Pinto

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