domingo, 7 de agosto de 2011

Quarto sonho


 Caminhava eu por caminhos escuros; na verdade, negras trilhas escorregadias. Tinha eu a sensação da lama. De repente estanquei recusando-me a continuar, cheia de asco, e mais ainda, cheia de cansaço. Olhei-me e me vi em vermelho sangue. Não tinha forma, não tinha expressão. Eu era uma grande mancha vermelha em meio à lama negra. Sem membros, sem rosto, uma contração dolorosa me transformava em uma disformia sangrante. E me senti diluir. Entrei em pânico,  percebi a ameaça da lama, ávida, querendo me engolir. A dor crescia, mas busquei em minhas entranhas a dignidade que sempre me distinguiu da lama, e foi então que comecei a chorar. Fontes, rios e cachoeiras brotaram em mim, e para meu horror, eram rios negros. Foi assim que, de repente, tudo que havia no mundo era vermelho e negro. Meu sangue e a lama, da qual eu lutava para me distinguir. Busquei forças para me mover, tentando resistir ao ataque dos pântanos, e ao me virar, vi no ar letras brincantes que se reuniam e se dispersavam numa dança macabra. Minhas lágrimas engrossavam, eu diminuía. Aos poucos me acalmava e as letras, diante de mim, se fixaram anunciando: a retórica é a morte do ser. Fiquei muito ansiosa, mas, agora, estava segura de que não me diluiria. Meu choro se tornou riacho, tranquilo e perene. E límpido. Não havia em mim nenhuma lama. Eu via a lama fora de mim. Não havia mais sangue em mim, e ainda sem forma, senti meu coração se apresentar, pontuando uma ansiedade triste. Temi não mais acordar, sendo a minha vida, uma eterna noite. Longe estava meu despertar.

Magda Maria Campos Pinto

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