quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Sétimo sonho


Um dia meu avô disse que eu não devia caminhar daquela maneira, e eu tinha treze anos, e ele ficava sentado naquele banco rústico, diante da casa, nos finais das tardes, vendo a vida passar. Às vezes eu me sentava ao seu lado e tentava acompanhá-lo, mas minha vida era tão pequena que não havia muito que ver, e então me levantava logo. Naquela tarde levantei-me e desci a rua, mas senti o olhar do meu avô me olhando descer a rua. Existem momentos que enxergamos sem olhos; momentos em que estamos sendo vistos, momentos que precisamos profundamente de um olhar que faça nossa vida emergir. O olhar do meu avô me vendo... e eu soergui o corpo, abri o peito, levantei a cabeça, tomei consciência da bunda, e desfilei rua abaixo. De fato, eu estava apenas respondendo ao olhar: ‘sim, eu sou uma mulher’. E a noite foi tranqüila, e nova. No dia seguinte, ou melhor, na tarde seguinte, sentei-me novamente ao lado dele, aguardando a confirmação do meu estatuto novo. E então, ele me derrubou: ‘você não pode andar daquela maneira... Não está certo’. ‘Por quê?’ ‘Porque parece mulher da vida’. Quis dizer, ‘sim, mulher na vida... ’. Mas não disse, ousadia impossível não concordar com a gramática do avô. Danei-me, disse ‘sim, senhor’ e desci a rua, cabisbaixa, peito contrito, sem bunda, sem gênero. Procurei outro avô, outro olhar, mas este avô não olhou para mim, disse que eu devia estudar política e participar da revolução que ia salvar o Brasil. Gostei da idéia, e descansei da questão do gênero. Tudo estava em seus lugares quando, depois de uma batalha sangrenta, fugi da polícia rua acima e me abriguei na casa do primeiro avô. Exausta da revolução, adormeci ali mesmo, na sala, sobre o sofá que ficava sob a mesma janela que, do lado externo, acimava o banco do qual meu avô assistia a vida. Uma luz tênue emanava de um sol que se punha distante, distante, morrendo em cores marrons. Morria o sol, eu sentia, mas o mundo estava claro, puro céu, tão claro que me vi nua e imensa. Meu corpo transparente e bem delimitado por azul intenso preenchia a sala, a rua, o mundo. Eu me despi. Pensei em sono solto. E me vi. A mulher atravessou a revolução e o avô.

Magda Maria Campos Pinto

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