terça-feira, 9 de agosto de 2011

Quinto Sonho

 

O sol explodia o dia em luz e eu tentava atravessar aquilo que me parecia ser o deserto absoluto. Cega de luz e calor eu me arrastava sonhando sombras. Sabia-me perdida, ignorante, e mais precisamente, tonta. O suficiente para desconsiderar a luz. Eu queria apenas seguir, supondo paz em sombras. Segui. E chegaram aquelas cenas que chamei miragens. Chuvas verdes emolduravam o sol criando um palco iluminado; estrelas e lua em rosa brincavam no palco, divertindo-se com a luz que as beijava. Então, vagarosamente, surgiu uma figura que se movimentava como quem dança uma música suave que não se ouve, mas se vê. A música estava nos movimentos daquela pessoa, sim, era uma pessoa, que vestia um macacão bem largo, que lhe chegava aos pés e às mãos. Em torno do pescoço havia babados múltiplos que também se moviam delicadamente. Eu não conseguia ver as cores da pessoa; a luz invadia a figura que era apenas movimentos de dança feliz. Procurei um rosto: era escuro, opaco, fechado... Escuro. Ali a luz estava barrada. A cabeça vinha coberta por um gorro em cone, bem apertado, que terminava numa espécie de rabo de fitas, também escuras. A cabeça não era música, recusando-se à leveza do corpo. Seguiu-se um espetáculo doloroso em que corpo e cabeça não se encontravam... Até que lágrimas em rosa começaram a correr por aquela face escura e eu acordei cantando Chico Buarque.

Magda Maria Campos Pinto



Vida, minha vida olha o que é que eu fiz
Deixei a fatia mais doce da vida
Na mesa dos homens de vida vazia
Mas, vida, ali, quem sabe, eu fui feliz


Vida, minha vida olha o que é que eu fiz
Verti minha vida nos cantos, na pia
Na casa dos homens de vida vadia
Mas, vida, ali, quem sabe, eu fui feliz


Luz, quero luz
Sei que além das cortinas são palcos azuis
E infinitas cortinas com palcos atrás
Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa,
Pulsa, pulsa mais


Mais, quero mais
Nem que todos os barcos recolham ao cais
Que os faróis da costeira me lancem sinais
Arranca, vida
Estufa, vela
Me leva, leva longe,
Longe, leva mais


Vida, minha vida olha o que é que eu fiz
Toquei na ferida, nos nervos, nos fios
Nos olhos dos homens de olhos sombrios
Mas, vida, ali, eu sei que fui feliz

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