sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Terceiro sonho:


Chovia. Estava frio e eu sentia medo. Não via coisa alguma, mas chovia e eu sentia frio. De repente, tudo ficou vermelho. Será chuva? Sim, parecia-me vermelha a chuva. Pensei: é sangue. E doeu. E continuou doendo, e aumentava a chuva. Entre vi uma pessoa do outro lado (da chuva?). Vi a cabeça onde se vislumbravam olhos fechados e grandes bigodes. Nada mais. Mas havia um corpo. Não, não um corpo... Um espaço onde deveria haver um corpo, e era só um espaço, em negro, se destacando do redor em vermelho; sem braços, sem membros, como se a pessoa estivesse envolta em panos. E logo logo eu pensei que estava dando-lhe alguma humanidade, pois... Eu inventava os panos, sim, eu inventava panos, então pensei: panos quentes! E eu estava com frio. A chuva não ruidava, e tudo ficava mais triste. Tentei ver a mim, contorci-me, tomei distância... E voltei. Vi-me bem de perto, e eu era um ser em amarelo. Tinha rosto fino e cabelos longos. Não conseguia vislumbrar traços; onde estava o rosto, o amarelo carregava respingos mais intensos, se alaranjava, só isso. Vi pescoço fino e peito nu; é, nu. Ali o amarelo era quase branco, e havia também uma cintura, um quadril... Sem pernas. Vi longos braços, infinitos braços... Eles se prolongavam para além da chuva, para fora da borda da folha do papel. Então vi instantaneamente a folha em branco. E procurei o verde.

Magda Maria Campos Pinto

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