sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Mais gente falando do caso Giselle: que bom!!

O pior do caso Giselle Bündchen, Gilberto Dimenstein na Folha de 30/09/11

Há um grupo de pessoas, do qual eu faço parte, que é muitas vezes debochado por ser "politicamente correto". Nunca entendi bem essa crítica, afinal o que se pretende é preservar os direitos de quem, no cotidiano, é vulnerável. Isso significa apenas educação para a cidadania: um olhar crítico a comentários que possam ofender negros, judeus, mulheres, deficientes, migrantes, nordestinos, homossexuais. Mas está virando moda dizer que essa visão é atrasada e estimularia a censura. Aí está o pior do caso do comercial da Gisele Bündchen.
Pode-se achar a propaganda de mau gosto, mas, em alguns casos, a repercussão acaba dando força a quem se imagina engraçadinho ao desrespeitar as outras pessoas. É um exagero, na minha visão, o governo tentar coibir esse anúncio.
Gosto muito mais da ideia de brigar no campo das palavras: estimular o debate.
A santinha Sandy fazendo pose de devassa para vender cerveja? Vamos mostrar o ridículo. Rafinha Bastos brincando com estupro? Vamos fazê-lo ver a falta de graça e que tudo tem limites. Mulheres se sentem ofendidas em se ver como objeto sexual? Compre-se outro sutiã.
O governo entrar como entrou contra o comercial soa um tanto ridículo.
O pior do caso da Gisele é passar a sensação de que o politicamente correto é ser chato e intolerante. Quando, na verdade, o que se combate é a intolerância em nome do respeito à diversidade. 

Gilberto Dimenstein, 54, integra o Conselho Editorial da Folha.
p.s: a gente pensa assim também.

Quando não temos palavras, um milagre está acontecendo... (versando Guimarães Rosa)

Eliane Brum de novo no clube:

“Debora nos apresenta uma realidade que, não por acaso, pouco chega até nós. Depois de ler sua entrevista, pode parecer difícil acreditar. Mas raras vezes conheci alguém tão leve, transparente e feliz. Os olhos de Debora brilham enquanto conta sua experiência. Nos momentos de maior brutalidade se turvam – e depois voltam a brilhar. Ela não perde nenhuma oportunidade de rir e sua voz é sempre suave. E, quando abraça as pessoas, abraça. Dá vontade de se tornar amiga dela pelo resto da vida. Deve ser por isso que a legião de amigos de Aracaju a espera no aeroporto com champanha e balões quando ela chega estropiada de mais uma missão.

É isso. Debora é com certeza uma das pessoas mais vivas que conheci. E esta é uma entrevista ao mesmo tempo chocante e inspiradora. Dois adjetivos que só alguém com as qualidades de Debora, capaz de arrancar esperança nos cenários mais brutais, poderia acrescentar a um mesmo substantivo. Por isso, foi também uma entrevista muito difícil de cortar. Depois de bastante sofrimento, consegui deixá-la em um terço da original. E guardar o restante para outro momento. Vale cada linha. E meu sonho é que todos possam lê-la e ser movidos pela vontade de compartilhá-la com os amigos e também com desconhecidos.
A foto abaixo foi escolhida por Debora e feita em Porto Príncipe, no Haiti, em 2009. A criança em seu colo se chama Estelle. Sua família queimou suas duas mãos e seus dois pés numa chapa quente, causando queimaduras tão graves que a menina correu o risco de sofrer a amputação dos membros. Durante todo o tratamento, Estelle só aceitou o toque de uma pessoa: Debora.

O que Debora diz é vital. Espero que, ao ler a entrevista a seguir, cada leitor possa alcançar Debora e incluir uma porção maior de mundo dentro de si. “ (...)

(arquivo pessoal de Débora)
Você pode ler a reportagem inteira em:


http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI228050-15230,00-MINHAS+RAIZES+SAO+AEREAS.html  

p.s: obrigada, Daniel.

CONVITE ESPECIAL:


O Coordenador de Cultura, Juninho Deusemi, convida você para o coquetel de abertura da exposição de Marcelo AB, "ARQUEOLOGIAS URBANAS", no Centro Cultural de Contagem (Casa Amarela).

A exposição permanecerá aberta a visitação, de 7 de outubro a 4 de novembro de 2011, de segunda a sexta feira, de 9 às 17h.
(Rua Dr. Cassiano, Nº 130, Centro)Também estarão em exposição os trabalhos de Eliane Roedel, Hilda Senff e Zélia Evangelista, alunas de Marcelo AB.


Coquetel de abertura: Dia 06 de outubro, às 19h. (favor confirmar presença: 33525347)

FRAGMENTOS DE UM SOLO


 3.

De qualquer maneira, eu me escondia mais e mais. Sobrava-me o sexual. Queria transar. Por que não? Repetia eu à distância, e ele vacilava, mas sem se atrever a sentir o medo que sentia. Eu o obriguei. A maior violência a que nos submetemos. Depois disso, o orgasmo virou uma quimera, e começamos uma atribulada, confusa e entediada vida sexual. Eu me sentia culpada. Ele se sentia aterrorizado. Mas ninguém se atrevia a sentir o que sentia. Ser barata na vida tornou-se um fato. Histérico, mas um fato. E os homens começaram a crescer proporcionalmente ao susto que sentiam quando eu me mostrava a eles. Barata. Proporcionais também ao crescimento da minha culpa e seus pânicos. Um dia um deles me perguntou: mas que diabo você pensa que é? E eu lhe respondi histericamente de verdade: um pobre ser que se percebe barata e que gostaria que você o tirasse dessa. Foi o suficiente para que ele quase morresse de pneumonia. Éramos patéticos, em seu sentido mais estrito. O jogo eu-bato-depois-é-a-sua-vez era jogado em muitas versões. Por exemplo, havia a versão DOPS. Quem sabe o que é isso hoje? (ontem?). Bom, dizem-me: passou. Eu digo passou. E desculpem as cicatrizes. Mas de fato muito tempo depois as coisas ficaram mais claras e entendemos que, de início, nós só podíamos gostar da dor. Cada um a seu modo. E isso, para piorar, era ontológico, diziam alguns que se queriam filósofos, para si mesmos, e para nós todos. À guisa de consolação. E nos consolávamos, de alguma maneira. Talvez com um pouco mais dor. De repente me lembro de um homem que não quis jogar. Tenho problemas com a memória. Lembro-me em excesso e fico perdida entre imagens, sons, cheiros, devaneios, verdades e violências. Ele não quis jogar, acreditava na paz, na felicidade, no entendimento. Eu o odiei, ele não me entendeu. Eu o odiei mais. A paz? Risível. Onde tudo era brutalidade, arrogância e competição ele queria amar. Ah, minha contradição. Ah, minha vã filosofia! Nada tão verdadeiro quanto minha filosofia. Ah... Minha mentira. Nada tão sincero quanto minha filosofia, e ninguém mais mentirosa que eu, meu feminino eu. Eu disse que chegaria o dia em que não me importaria ser ou não compreendida. Eu disse. E não pedirei desculpas por ter sobrevivido. Drummond pediu. Não peço, e hoje quero apenas uma maneira de não ceder em meu ódio, e de não ser vencida por minha proverbial (e imodesta) bondade.

Magda Maria Campos Pinto 


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Primavera, por Rosane

 (flores de BH, por Rosane)


'Se temos de esperar,
que seja para colher a semente boa
que lançamos hoje no solo da vida.
Se for para semear,
então que seja para produzir
milhões de sorrisos,
de solidariedade e amizade.'


Cora Coralina

FRAGMENTOS DE UM SOLO

 2.

Apesar de tudo, exibia para os colegas minha máscara mais detestável, que eu nomeava ‘impávido colosso’. Horrível. Mas era assim que eu ainda, às vezes, era. Verdade que, naquele tempo, já me equilibrava melhor sob a armadura e, pelos olhos, deixava escapar algo. Eu me traia, e derramava a fluidez do meu jeito ingênuo e bobo de ser. Mas só com os olhos. E pode ser que isso não fosse exatamente um avanço, pois me via embaraçada na armadilha dos olhares. Fosse por pura maldade , fosse para me obrigar a sustentar o que eu, disfarçadamente, expunha, as pessoas podiam ignorar a minha entrega. E eu, impedida de me certificar daquilo que entregava, ficava tolhida em minha confissão. Ficava à mercê da bondade alheia, aprisionada na teia dos reflexos óticos. Por ainda não ter aprendido a falar com a boca, estava obrigada a vestir o impávido colosso.
Dentro da turbulência que só o impávido colosso conseguia disfarçar, eu tentava usufruir da carta imaginária. Uma respiração lenta. Um coração disritmado. Um prosaico friozinho na barriga, e eu sabia que havia muito mais a sentir... Mas de nosso olhar não temos retorno. Não tão facilmente. Nem no espelho, pois aquele que nos olha é sempre um estranho. Há que se encontrar um estranho que nos veja como o vemos. Já disse isso antes. Já o disse mil vezes. Ando a me repetir. Repito: é mais fácil ouvir-nos, isto é, não tão fácil, é um exercício demorado, mas... Nossa! As pessoas da reunião, de repente estão caladas. Estão me olhando. Reinventei uma naturalidade que sorria e devolvi o relatório ao chefe. Reunião, e eu sonhando poesia.

Magda Maria Campos Pinto

Giselle e a Secretaria de Políticas para Mulheres


 
“A Secretaria de Políticas para Mulheres do governo federal pediu ao Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) a suspensão do campanha publicitária "Hope ensina", que traz a modelo Gisele Bündchen mostrando a "melhor maneira" de contar más notícias ao marido.
Primeiro, Gisele aparece usando roupas normais para falar, por exemplo, que bateu o carro. A estratégia é classificada como "errada" e em seguida a forma "correta" é mostrada: a modelo repete a notícia, usando apenas lingerie. "Você é brasileira, use seu charme", conclui a peça publicitária, que está no ar desde o último dia 20.
A secretaria afirmou que recebeu, por meio da ouvidoria, diversas manifestações de indignação contra a peça. Foram enviados dois ofícios --um ao Conar, pedindo a suspensão da propaganda, e outro ao diretor da Hope Lingerie, Sylvio Korytowski, manifestando repúdio à campanha.
Para a secretaria, "a propaganda promove o reforço do estereótipo equivocado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora os grandes avanços que temos alcançado para desconstruir práticas e pensamentos sexistas".
A Secretaria de Políticas para Mulheres também diz acreditar que o comercial reforça a discriminação contra a mulher, o que infringe a Constituição Federal. “

OPINIÃO:
Acho discriminação e coerção da livre expressão a proibição da Secretaria de Políticas para Mulheres; aliás, tenho dúvidas sobre a legitimidade da própria existência dessa secretaria. Estereótipo equivocado é uma expressão a se analisar. E fico a me perguntar ‘qual estereótipo a secretaria acha adequado criar’. Uau! Ou melhor, nada disso... o que eu gostaria mesmo é de usar o acontecido para pensarmos mais sobre ‘mulheres, homens, leis, educação...’. Encontro enorme equívoco na atitude da Secretaria. E ficaria muito contente se vocês opinassem usando essa deixa, colaborando assim para nosso estudo e esforço educativo.
Magda Maria Campos Pinto

O museu da Inocência II


“Gostaria agora de dizer algumas coisas sobre nossos beijos, embora tenha alguns pruridos que me levam a evitar a trivialidade e as confissões mais vulgares. Quero contar minha história de um modo que faça justiça a seus aspectos mais sérios relacionados ao sexo e ao desejo: a boca de Füsun tinha o sabor de açúcar de confeiteiro, devido, acho, aos chicletes Zambo de que ela tanto gostava. Beijar Füsun não era mais uma preliminar destinada a atiçar e manifestar nossa atração recíproca; era uma coisa que fazíamos pelo prazer de fazer, e quando nos amávamos ficávamos ambos espantados de descobrir a verdadeira essência do amor. Não era apenas nossas bocas molhadas e nossas línguas que se entrelaçavam, mas nossas respectivas memórias. Assim,toda vez que nos beijávamos,primeiro eu a beijava da maneira como se encontrava à minha frente, e depois da maneira como existia na minha memória. Em  seguida, abria os olhos por um segundo para beijar sua imagem de um momento antes, e depois, uma imagem da memória mais distante, até que a lembrança de outras moças parecidas com ela se combinassem com essas memórias e eu as  beijasse também , sentindo-me mais viril ainda por beijar tantas garotas ao mesmo tempo; a partir daí, ficava fácil beijá-la como eu fosse outra pessoa, enquanto o prazer que extraia de sua boca de criança, de seus lábios carnudos e de sua língua travessa aumentava minha confusa  e alimentava pensamentos que até então eu ignorava (“Ela é uma criança, era um desses pensamento – ‘sim, mas bastante mulher’, era outro), e o prazer ia crescendo até abarcar as várias personas que eu adotava quando a beijava, e todas as Füsuns rememoradas que evocava a cada beijo seu...” (...)

In Orhan Pamuk, O Museu da Inocência, Companhia das Letras, SP. 2011

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Orhan Pamuk: O museu da Inocência

Orhan Pamuk, maravilhoso escritor turco, Nobel de Literatura de 2006, volta ao clube hoje (veja post de 02 de setembro de 2009). Agora  quero falar de O MUSEU DA INOCÊNCIA. É tão surpreendente quanto saboroso. É simples como se você estivesse caminhando tranquilamente pela cidade, vendo as pessoas e as coisas e é denso como a noite que cai no meio da tarde trazendo uma tempestade. É crítico, é severo; mas é luminoso pelos fortes fios de bondade que o atravessam por inteiro. É pesado e solto. Mas o melhor, o melhor mesmo é amor que o sustenta. Para além da absoluta acuidade do autor que nada perde de seu redor – sua cidade, seu tempo, sua gente, sua cultura – tem a definitiva entrega ao amor. Com a delicadeza e a solidão que lhe são peculiares. Orhan Pamuk, mais um escritor com quem me casei. É um dos melhores que já li nos últimos tempos, quiçá, o melhor (e isto é muito complicado para um leitor compulsivo). Mas enfim, é uma obra-prima. 

FRAGMENTOS DE UM SOLO

  1.

Este elevador sempre demora. Em meio aos vaivens do carro tentando se encaixar eu pude me lembrar do medo engolido a seco e embrulhado em atrevimento, diante do examinador do Departamento de Trânsito, sempre um homem, quando eu, mulheróide de dezoito anos, tentava habilitar-me a dirigir um carro, e a década era setenta. Ou seja, há mais de dez anos e... Não quero me lembrar da década de setenta agora. Este elevador que não chega! E aquele homem do departamento se obrigando a estar preocupado antes com as minhas pernas, impunha a nós dois uma piada de mau gosto e eu, me obrigando a enfrentá-lo. Mas por que será mesmo que a coisa toda se passava sempre num enfrentamento? Eu aprendi a manter o autocontrole, de certa forma, colossal, digamos. Mas acabei por aprender também a me sentir uma barata, isto é, uma barata, aquela espécie que, apesar da caça universal, resiste. E sobrevive, até à bomba atômica, dizem. Bem que um dia  eu pensei em matar o Kafka, até entender que as baratas me perseguiriam apesar do assassinato dele. Quero me redimir: eu amo Kafka. Essa história de se sentir uma barata que resiste ao nuclear pertence ao ‘a mais’ que é parte do feminino. E agora eu gostaria de matar o Freud. O toque feminino. Nada, não quero matar a ninguém, e já penso que quem me salva é Freud. Ainda que pouca gente entenda isso. Chegará o dia que não me importarei com quem me entenda ou não. Maldito elevador. Aquele ‘a mais’ que é parte do feminino (há quem pense que é ‘a menos’... eu disse que pouca gente entende) ficou por demais complicado para aquelas mulheres, ou melhor, para essas mulheres. Pra mim. Muito complicado. Expressar um excesso inexprimível e mais, de modo sexualmente explícito, é verdadeiramente um exagero. E me explicaram que toda mulher é exagerada. Tipo Cazuza?  Preciso me lembrar de que os homens de nossas mães, nossos pais, vieram da guerra. Acho que por muito tempo confundi tudo isso com país. Eu demorei muito a me considerar apta para dirigir um carro. Esse registro era escândalo no imaginário dos humanos. Ah, mulher no volante! E tudo ficou antigo. Quiçá incompreensível.

Magda Maria Campos Pinto 


Mais primavera e poesia...

 

2º Motivo da Rosa
Cecília Meireles


A Mário de Andrade
 
Por mais que te celebre, não me escutas,

Embora em forma e nácar te assemelhes
À concha soante, à musical orelha
Que grava o mar nas íntimas volutas.

Deponho-te em cristal, defronte a espelhos,
Sem eco de cisternas ou de grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
Ofereces às vespas e às abelhas.

E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
E cega e bela e interminável rosa,
Que em tempo e aroma e verso te transmutas!

Sem terra nem estrelas brilhas, presa
A meu sonho, insensível à beleza
Que és e não sabes, porque não me escutas...

In Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, Objetiva, RJ, 2001.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

mais primavera e poesia...



Há uma rosa caída
 Maria Ângela Alvim

Há uma rosa caída
Morta
Há uma rosa caída
Bela
Há uma rosa caída
Rosa.

In Poemas, Maria Ângela Alvim, Unicamp, 1993, 3ª edição Campinas, SP.

Falemos de primaveras...

VI 
ROSA MURCHA
Esta rosa desbotada
Já tantas vezes beijada,
Pálido emblema de amor;
É uma folha caída
Do livro da minha vida,
Um imenso de dor!
***
Oh! Esta flor desbotada,
Já tantas vezes beijada,
Que mistérios não tem!
Em troca de seu perfume
Quanta saudade resume
E quantos prantos também!

In Primaveras, Casimiro de Abreu, L&PM POCKET,  Porto Alegre, 1999

Sobre quem está em apuros por excessos: Letícia Sorg. Contribuição de Gisella.



“Neste fim de semana tomei um susto ao olhar a caixa de e-mail. O Facebook tinha me escrito. Não era para avisar que alguém tinha enviado uma mensagem, deixado um recado nem nada do gênero. Era para reclamar da minha ausência. O e-mail dizia:
“Olá, Letícia, você não acessou o Facebook nos últimos dias; várias coisas aconteceram na sua ausência.” De fato. Vários amigos – muito ou nada próximos – dividiram seus pensamentos, suas atividades, suas fotos. Suas alegrias, tristezas, reclamações. Seus gostos e desgostos. E eu não estava lá para ler. Pensei: “Que bom”. Cogitei até responder à mensagem automática: “Olá, Facebook, várias coisas aconteceram na minha vida na sua ausência.” Coisas. Nada fora do comum. Não viajei, não fui a nenhum show ou restaurante estrelado. Mas fiz algo extraordinário nos dias de hoje: fiquei só comigo mesma, e meus pensamentos. Você se lembra quando foi a última vez em que fez isso?
Costumávamos ficar sozinhos nas filas de bancos, supermercados. Nas salas de espera de médicos, dentistas e afins. Nos almoços e jantares sem companhia. Nas viagens para terras distantes ou nem tanto. Com o celular, não ficamos mais.
Até podemos ficar. Mas logo aquela mensagem chega, aquele aviso toca, aquele tédio bate e pronto, foi-se nosso momento a sós. E foi-se também aquele fio de reflexão que começava a se formar, aquele desconforto, aquela dúvida. Pluft. Saímos do nosso mundo interior de volta para o exterior. Fulano está no restaurante XXX. Beltrano compartilhou uma foto das férias. Sicrana recomendou um link.Há fatos e informações mais e menos interessantes. Algumas podem até ser úteis para a sua vida. Mas, sempre conectados, deixamos de perceber informações sobre nós mesmos. Do que gostamos. O que queremos. O que buscamos. Para além da próxima atualização.
Fiquei pensando sobre isso depois de ler um texto recente de Dalton Conley para a Bloomberg. Conley é cientista social e autor do livro Elsewhere, U.S.A.: How We Got From the Company Man, Family Dinners and the Affluent Society to the Home Office, BlackBerry Moms and Economic Anxiety (algo como Outro lugar, Estados Unidos: Como saímos do homem empregado, dos jantares em família e da sociedade afluente para os escritórios em casa, as mães com celulares e para a economia da ansiedade). No artigo, ele discute como a conexão constante com os outros está nos distanciando de nós mesmos.
Conley lembra que, no final da adolescência, fez um mochilão pela Europa e falava, no máximo, cinco minutos com os pais por semana. Algo como “tudo bem? tudo bem!” E não tinha um tradutor instantâneo a tiracolo para salvá-lo dos apuros em que se metia.  Nem alguém sempre disponível no Facebook com quem compartilhar o que quer que fosse. No máximo, tinha um livro, um diário ou um novo conhecido com quem topava pelo caminho.
E aquele incômodo que a solidão causava no início ia-se amainando. E ele começava a identificar quem era ele assim: livre de influências e julgamentos. Desenvolvia uma intimidade consigo mesmo, uma consciência de si próprio.
Fora do palco – real ou virtual – em que todos podiam vê-lo, experimentava outras versões de si mesmo que até então tinham ficado só nos bastidores. E conhecendo-se assim, intimamente, podia oferecer mais de si mesmo para algumas – poucas – pessoas de seu convívio.
O risco que corremos, ficando o tempo todo no palco, é acabar com a nossa coxia vazia.”

  Letícia Sorg é repórter especial de ÉPOCA em São Paulo.

Bom, seguinte: reconheço, respeito e preciso de todos os aparelhos que a tecnologia tem me oferecido. Mas repito que ODEIO encontrar alguém que esteja com o celular ligado; recuso-me a dividir a minha companhia seja com quem for que traga algum teclado pendente em seu corpo. Eu quero conversa, diversão e arte... E muitas vezes quero ficar sozinha comigo mesma, sem ser interrompida, pois tenho muito o que me dizer. Em tempo: há uma piada familiar na qual sou a vítima dos risos, vem desde os tempos em que eu reclamava aos brados dos cumprimentos, falas e tais que as tais máquinas nos dirigem quando chegamos ou saímos de algum lugar, tipo shoppings e etc. Pois é, faz tempo... e continuo reclamando. Não gosto de conversar com máquinas. Gosto delas para escrever. E só. Ah, em tempo: o lobo ali de cima? É que duvido que alguém com um celular, uma super hiper mega sei lá o quê para fotografar, já tenha visto, cheirado,surpreendido, sentido algo assim. Poderá até fotografar.... mas contemplar e sentir o coração saltar, e descobrir um pouco de si mesmo... bom, é isso.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Drummond e primavera...

 
Entre Flores 

As flores estavam inquietas porque o arquiteto-paisagista havia projetado uma flor diferente de todas as existentes. O projeto fora encaminhado à comissão de notáveis, que deu parecer sugerindo a adoção da nova flor como a primeira do país e seu símbolo oficial.
‘Com uma flor diferente de nós todas e erigida em marca nacional – murmuravam a um só tempo os crisântemos, as dálias, os cravos e muitas outras espécies, inclusive a flor de fedegoso, que pelo nome não era muito apreciada – institui-se discriminação no reino vegetal. Além do quê, flor sintética não é flor que se cheire’.
A rosa não quis opinar, porque ainda conversa ilusões de rainha. Uma deputação de flores procurou o arquiteto-paisagista, que se recusou a recebê-la, mandando dizer que estava muito ocupado. Seguiu-se a greve floral durante 45 dias, em que ninguém mandava flores ou tinha condições de colhê-las, pois todas passaram a ter espinhos, e algumas, cheiro de enxofre.
Mesmo assim, a flor de proveta foi institucionalizada, em muitas variedades, como a cinerária, o lírio amarelo e o jacinto, que antes formavam no coro das reclamantes, levaram-lhe cumprimentos no dia de sua glorificação. Os espinhos e o mau odor desapareceram, e até a rosa lhe mandou telegrama de parabéns e votos de eterno florescimento.

In Contos Plausíveis, Carlos Drummond de Andrade, José Olympio, RJ, 1985.

UTILIDADE PÚBLICA

SAMU INFORMA:

UTILIDADE PÚBLICA IMPORTANTE

As ambulâncias e emergências médicas perceberam que muitas vezes nos acidentes da estrada os feridos têm um celular consigo. No entanto, na hora de intervir com estes doentes para avisar parentes ou conhecidos, os socorristas não sabem qual pessoa contatar na longa lista de telefones existentes no celular do acidentado.

Para tal, o SAMU lança a idéia de que todas as pessoas acrescentem na sua longa lista de contatos o NUMERO DA PESSOA a contatar em caso de emergência. Tal deverá ser feito da seguinte forma: 'AA Emergencia' (as letras AA são para que apareça sempre este contato em primeiro lugar na lista de contatos).

É simples, não custa nada e pode ajudar muito ao SAMU ou quem nos acuda. Se lhe parecer correta a proposta que lhe fazemos, passe esta mensagem a todos os seus amigos, familiares e conhecidos.

É tão-somente mais um dado que registramos no nosso celular e que pode ser a nossa salvação. Por favor, não destrua esta mensagem! Reenvie-o a quem possa dar-lhe uma boa utilidade.

JOSIANE TROCATTI

Coordenadora Administrativa

SAMU - Serviço de Atendimento Móvel de Urgência

PORQUE AMAR MIA COUTO:



As Conferências do Estoril têm como objetivo criar um pólo de reflexão de nível internacional sobre os desafios da globalização, com particular atenção à relação entre os domínios global e local.
A iniciativa visa afirmar o Estoril, e Portugal, como ponto de encontro de algumas das mais conceituadas individualidades, organizações internacionais, universidades, centros de investigação e desenvolvimento, think tanks e organizações não governamentais.
Portugal, marcado desde sempre pela confluência de dois espaços marítimos (o Mediterrâneo e o Atlântico), teve, e poderá assim continuar a ter, um papel de primeira linha na aproximação entre povos e regiões e no debate de ideias de modernidade, ecumenismo e universalismo.
Num mundo em mudança acelerada, o reforço da interdependência entre os vários atores e regiões gera simultaneamente oportunidades e desafios que suscitam uma análise cada vez mais profunda. Com uma abordagem inovadora, as Conferências do Estoril incorporam o conceito operativo de «resolução de problemas», partindo do pressuposto que os problemas são globais e que a sua resolução carece simultaneamente de soluções globais e locais. A relação entre global e o local constitui assim um lema comum a todas as edições, definindo-se para cada uma delas um «problema-tema».

Saiba mais sobre as Conferências de Estoril no site:

 
p.s: obrigada, Rodrigo.

domingo, 25 de setembro de 2011

mais poesia e primavera...


“ Dos seres ímpares ansiamos prole
Para que a flor do belo não se extinga,
E se a rosa madura o tempo colhe,
Fresco botão sua memória vinga.
Mas tu, que só com os olhos teus contrais,
Nutres o ardor com as próprias energias
Causando fome onde a abundância jaz,
Cruel rival, que o próprio ser crucias.
Tu, que do mundo és hoje o galardão,
Arauto da festiva Natureza,
Matas o teu prazer inda em botão
E, sovina, esperdiças na avareza.
 Piedade, senão ides, tu e o fundo
 Do chão, comer o que é devido ao mundo.

In  William Shakespeare, 24 sonetos, Edição Bilingue, Tradução de Ivo Barroso, Nova Fronteira, 1975.

Mais chá...


 Comecemos por dizer que chá é um arbusto, chamado Camellia sinensis, que cedeu folhas e raízes para uma fazer uma bebida, a qual se tornou tão popular que atualmente, em todo mundo, chá é uma bebida preparada com a infusão de folhas, flores e raízes, de inúmeras e diversificadas plantas, em água quente.  A planta é nativa das regiões subtropicais, com especial florescimento em altas altitudes. Mais da metade das três milhões de toneladas produzidas anualmente são provenientes da China e Índia; na Europa, o chá é cultivado em Portugal, mais precisamente nos Açores, cerca de quarenta toneladas por ano. Foi Portugal que introduziu o uso e o cultivo de chá na Europa.
Conta a lenda que a árvore do chá foi descoberta, no ano 2737 a.C. pelo imperador chinês Shên Nung, que passeando pelas suas propriedades teria bebido desapercebidamente uma xícara de água fervente onde caíra uma folha desta planta. Parece que o imperador achou maravilhoso (mas que se lembre: tudo que é bom, deveria ser atribuído ao imperador)
 O tratado de Lu Yu, conhecido como o primeiro tratado sobre chá com caráter técnico, escrito no séc. VIII, durante a dinastia Tang, definiu o papel da China como responsável pela introdução do chá no mundo. Os ingleses introduziram o chá no mundo ocidental no século XVII, temendo uma decadência do café. Até o século XVIII, o mesmo era uma bebida da elite européia. Existem noticias de se ter plantado  chá no Brasil em 1814, na Ilha do Governador e no hoje Jardim Botânico do Rio de Janeiro, tendo D. João contratado para isso colonos chineses para ensinaram o plantio e preparação do chá.

Sobre nossa insistência quanto ao chá: é uma maneira especial de ingerir água, muita água... e mais água. É uma maneira simples e elegante de PARAR. DE FAZER NADA.É uma maneira barata de se tratar, de voltar-se para natureza, de gastar menos, de ganhar saúde. Simples, né?  

A CASA... e a saúde.


 
“A infância é certamente maior que a realidade. Para experimentar, através de nossa vida, o apego que sentimos pela casa natal, o sonho é mais poderoso que os pensamentos. São os poderes do inconsciente que fixam as mais distantes lembranças. Se não tivesse existido um centro compacto de devaneios de repouso na casa natal, as circunstâncias tão diferentes que envolvem a vida verdadeira teriam confundido as lembranças. Afora umas poucas medalhas coma efígie dos nossos ancestrais, nossa memória de criança contém apenas moedas sem valor. É no plano do devaneio, e não no plano dos fatos, que a infância permanece em nós viva e poeticamente útil. Por essa infância permanente, preservamos a poesia do passado. Habitar oniricamente a casa natal é mais que habitá-la pela lembrança. É viver na casa desaparecida tal como ali sonhamos um dia.
Que privilégio de profundidade há nos devaneios de criança! Feliz a criança que possuiu, que realmente possuiu as suas solidões! É bom, é saudável que uma criança tenha suas horas de tédio, que conheça a dialética do brinquedo exagerado e dos tédios sem causa, do tédio puro. Em suas Memórias, Alexandre Dumas diz que era um menino entediado, entediado até às lágrimas. Quando sua mãe o encontrava assim chorando de tédio, perguntava-lhe:
- e por que é que Dumas está chorando?
- Dumas está chorando porque Dumas tem lágrimas – respondia o menino de seis anos.
 Esta é sem dúvida uma anedota como tantas outras contadas nas Memórias. Mas como ela marca bem o ‘tédio’ absoluto, o tédio que não é o correlativo de uma falta de amigos para brincar! Não existem crianças que deixam o brinquedo para ir se aborrecer num canto do sótão? Sótão dos meus tédios, quantas vezes senti tua falta quando a vida múltipla me fazia perder o germe de toda liberdade!”

In Gaston Bachelard, A poética do Espaço, Martins Fontes, SP, 2008.

Temos pensado: e o espaço doméstico? Disseram pra mim: foi para o espaço!  Estou chocada; duas vezes. Com a verdade, e com a linguagem. Então... Repetimos: preocupa-nos algo chamado EDUCAÇÃO. E eu aqui pensando: ‘vamos socializar, vamos para a aula disso, disto, daquilo, de lá, de cá... Vamos aprender dançar, nadar, saltar, correr, ganhar, vencer, vamos falar inglês, francês, mandarim e... Vamos, vamos, estamos atrasados, e a festa? Ai que horror, e o trânsito? Não vai dar tempo!... E O DEVANEIO?