sábado, 24 de setembro de 2011

Adriana Calcanhoto, Antônio Cícero e Gaston Bachelard


A verdade sempre aparece. As artes sempre se conectam. A beleza sempre se revela. Uma bela (e eu vou perder uma oportunidade de rima?) demonstração deste fato é a canção PELOS ARES, do grande poeta ANTÔNIO CÍCERO e da personalíssima cantora ADRIANA CALCANHOTO, ambos já freqüentadores deste clube. Mais: os dois diabinhos fizeram um ‘certo tipo de tango’, imagine isso!! Pois é... A distraída aqui ainda não tinha ouvido isto, até que fui para minha aula de tango e lá estavam dois outros malucos lindos dançando esta canção... Foi sublime, lhes garanto. E minha já famosa bondade me impede de não tentar dividir isto com vocês. Ah, e falando em conexões.... Pois é, como sabem, estamos ocupados com estudos da contemporaneidade e tins, e trens, e tais, e nesta ocupação voltamos a freqüentar o injustamente esquecido (por aqui...) GASTON BACHELARD, e sua poética do espaço e poética do devaneio, entre outros. E então, aproveitando a deixa dos diabinhos, por que não mais um pouco do filósofo? E repetindo: ali na frente, na esquina, tudo – que não for lixo -  se encontra....

Gaston Bachelard (1884-1962).

“Porque a casa é o nosso canto do mundo. Ela é, como se diz amiúde, o nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos. Um cosmos em toda acepção do termo. Vista intimamente, a mais humilde moradia não é bela? Os escritores da ‘casinha humilde’ evocam com frequência esse elemento da poética do espaço. Mas essa evocação é excessivamente sucinta. Como há pouco a descrever na casinha pobre, eles quase não se detêm nela. Caracterizam-na em sua atualidade, sem ver realmente a sua primitividade, uma primitividade que pertence a todos, ricos ou pobres, se aceitarem sonhar.
Mas nossa vida adulta é tão despojada dos primeiros bens, os vínculos antropocósmicos são tão frouxos, que não sentimos sua primeira ligação com o universo da casa. Não faltam filósofos que ‘mundificam’ abstratamente, que encontram um universo pelo jogo dialético do eu e do não-eu. Precisamente, eles conhecem o universo antes da casa, o horizonte antes da pousada. Ao contrário, os verdadeiros pontos de partida  da imagem,se estudarmos fenomenologicamente, revelarão concretamente os valores do espaço habitado, o não-eu que protege o eu.”
In Gaston Bachelard, A Poética do Espaço, Martins Fontes, SP, 2008.

Pelos Ares

Não lhe peço nada
mas se acaso você perguntar
por você não há o que eu não faça
Guardo inteira em mim
a casa que mandei
um dia
pelos ares
e a reconstruo em todos os detalhes
intactos e implacáveis
Eis aqui
bicicleta, planta, céu,
estante cama e eu
logo estará
tudo no seu lugar
Eis aqui
chocolate, gato, chão,
espelho, luz, calção
no seu lugar
pra ver você chegar

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