quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Amizade, Proust e Anatole France

XI

AMIZADE
"É doce, quando se tem uma mágoa, deitar-se no calor da cama e aí, suprimidos todo esforço e toda resistência, até a cabeça debaixo das cobertas, abandonar-se por completo, gemendo, como os galhos ao vento de outono. Mas existe um leito melhor ainda, repleto de aromas divinos. É nossa doce, profunda, impenetrável amizade. Quando faz frio e ele, agasalho aí, friorentamente, o meu coração. Envolvendo até o pensamento em nosso quente carinho, não percebendo mais nada do lado de fora e não desejando mais me defender, desarmado, mas por milagre de nossa ternura logo fortalecido, invencível, choro de mágoa e alegria por ter uma alma de confiança onde possa depositá-la”.

In Marcel Proust, OS PRAZERES E OS DIAS, RioGRÁFICA,RJ, 1986.

 (Marcel Proust)

Sim, Proust escreveu mais que EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO. Pena que poucos o saibam. ‘Os Prazeres e os dias’ é sua primeira publicação, de 1896 (cento e dez anos antes da que tenho a alegria de possuir) e se constitui de contos, novelas curtas, poemas, comentários, reflexões e críticas. Tem a marca da juventude mas já se mostram os elementos que confirmaram a rubrica Proust, muito posteriormente: análise aguda da sociedade, a curiosidade pelo elemento psicológico e a ironia que tece uma prosa poética, quase mística, carregada de subjetivismo. Por estas razões, já se disse que Proust foi o primeiro romancista que trouxe para a ficção os elementos próprios da corrente poética chamada Simbolismo. ‘Os Prazeres e os Dias’ ainda contam com o luxo de um prefácio de Anatole France, que também apresentamos pois bem demonstra o brilhantismo deste outro escritor especial, cuja vida vale vários romances, e que recebeu o Nobel de literatura em 1921. 

 (Anatole France)
PREFÁCIO
Por que me terá pedido para apresentar seu livro aos espíritos indagadores? E por que teria prometido assumir esse encargo bastante agradável, mas tão inútil? Seu livro é como um rosto jovem cheio de raro encanto e graça refinada. Recomenda-se por si só, fala por si mesmo e se oferta a seu pesar. Sem dúvida é jovem. Jovem pela juventude do autor. Mas é velho pela velhice do mundo. É a primavera das folhas nos ramos anosos, na floresta secular. Dir-se-ia que os brotos novos se entristeceram com o passado profundo dos bosques e carregam o luto de tantas primaveras mortas. O grave Hesíodo falou aos pastores de cabras do Hélicon sobre ‘Os trabalhos e os dias’. É mais melancólico falar aos homens e mulheres da nossa sociedade sobre os prazeres e os dias se, como pretende o estadista inglês, a vida fosse suportável sem os prazeres. Assim, o livro do nosso jovem amigo mostra sorrisos enfastiados e atitudes de fadiga que não deixam de ter sua beleza e nobreza. E mesmo sua tristeza achá-la-ão divertida e bem variada, conduzida como é e sustentada por um maravilhoso espírito de observação, por uma inteligência ágil, penetrante e verdadeiramente sutil. Este calendário de os prazeres e os dias assinala tanto as horas da natureza, através de quadros harmoniosos do céu, do mar dos bosques, como as horas humanas, por meio de retratos fiéis e pinturas de gênero, de maravilhosos acabamentos. Marcel Proust compraz-se igualmente em descrever o esplendor desolado sol poente e as agitadas vaidades de uma alma esnobe. Excele em contar as dores elegantes, os sofrimentos artificiais, que igualam ao menos em crueldade, os que a natureza nos prodigaliza com solicitude maternal. Confesso que esses sofrimentos inventados, essas dores criadas pelo engenho humano, essas dores artísticas, me parecem infinitamente interessantes e preciosas, e sou grato a Marcel Proust por ter estudado e descrito alguns de seus tipos seletos. Atrai-nos e nos retém numa quente atmosfera de estufa, por entre orquídeas sábias que não haurem na terra sua beleza estranha e doentia. De súbito, no ar pesado e delicioso, passa uma seta luminosa, um clarão que, como raio doe doutor alemão, atravessa os corpos. Com um traço o poeta penetrou o pensamento secreto, o desejo inconfesso. É o seu modo de ser e a sua arte. Mostra aí uma segurança que surpreende num arqueiro tão jovem. Não é absolutamente inocente mas é tão sincero e autêntico que se torna ingênuo e assim agrada. Existem nele traços de Bernadin de Saint-Pierre depravado e do Petrônio simplório. Livro feliz o dele! Irá pela cidade todo ornamentado, todo perfumado das flores com que o adornou Madeleine Lemaire com essa mão divina que espalha as rosas e o seu orvalho. (Anatole France)

 (Rosas, 1895)

 P.S: Madeleine Lemaire (1845-1928) foi uma elegante pintora francesa, famosa pelas chamadas ‘obras de gênero’ e por suas flores. Foi responsável por introduzir Proust nos salões da aristocracia francesa, e afirma George Painter no seu livro ‘Marcel Proust’ que Madeleine é um dos modelos de Proust para sua Madame Verdurin.  
 (Phoebe, 1896)

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