sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Cartas abertas – Naipe Amor


Querida:

Faz muito tempo que não lhe escrevo, senhora Milena, e também hoje lhe escrevo por uma casualidade. Na realidade não tenho que desculpar-me pelo meu silêncio, você já sabe como odeio as cartas. Toda a desdita da minha vida - não quero com isto queixar-me, senão fazer uma observação de interesse geral – provém, por assim dizer, das cartas ou da possibilidade de escrevê-las. As pessoas quase nunca me traíram, porém as cartas sempre; e na verdade não as afasto, senão justamente às minhas. No meu caso é uma desgraça muito especial, da qual não quero continuar falando, porém ao mesmo tempo é também uma desgraça geral. A simples possibilidade de escrever cartas deve ter provocado – a partir de um ponto de vista meramente teórico – uma terrível desintegração de almas no mundo. É, de fato, uma conversa com fantasmas (e para piorar, não somente com o fantasma do destinatário, como também com o do remetente) que se desenvolve entre as linhas da carta que alguém escreve, ou através de uma série de cartas, onde cada uma corrobora a outra e pode referir-se a ela como testemunha. De onde terá surgido a idéia de que as pessoas poderiam comunicar-se através de cartas? Se pode pensar em uma pessoa distante, se pode tocar uma pessoa próxima, tudo o mais se encontra além das forças humanas. Escrever cartas, entretanto, significa desnudar-se frente aos fantasmas, que esperam avidamente. Os beijos por escrito não chegam ao seu destino, os fantasmas os bebem pelo caminho. Com este abundante alimento se multiplicam, de fato, enormemente. A humanidade o percebe e luta para evitar; e, para eliminar o possível fantasma entre as pessoas e alcançar uma comunicação natural, que é a paz das almas, foi inventado o trem de ferro, o automóvel, o avião, porém já não servem, são evidentemente descobertas feitas no momento do desastre; o lado oposto é muito mais doentio e poderoso, depois do correio inventou o telégrafo, o telefone, a telegrafia sem fio. Os fantasmas não morreram de fome, e nós, em contrapartida, perecemos.

Todavia me assombra que você não tenha escrito nada sobre este tema, não para impedir de conseguir algo mediante a sua publicação, porque para isso é demasiado tarde, senão para demonstrar-lhes pelo menos (a eles) que foram descobertos. A (eles) também se pode reconhecer, na realidade, por suas exceções, porque às vezes deixam passar uma carta sem intrometer-se, e a carta chega como uma mão amiga, que suave e bondosamente se apóia na nossa. Bom, provavelmente isto seja apenas uma aparência e talvez estes casos sejam os mais perigosos, frente a eles deve-se precaver ainda mais que frente a outros, pois ainda que se trate de uma ilusão, é em todo caso, uma ilusão completa.

Algo parecido me sucedeu hoje, e por isso me ocorreu, na realidade escrever-te. Recebi uma carta hoje de uma amiga, que você também conhece; faz muito tempo que não me escrevia o que é notadamente sensato. Porque do anterior também se deduz que as cartas são um esplêndido remédio contra o sono. Em que condições alguém as recebe! Ressecado, vazio e provocativo, uma alegria momentânea seguida por grandes sofrimentos. Enquanto a lê, esquecido de si mesmo, perde o pouquíssimo sono que tinha, foge pela janela aberta e não volta senão muito depois. Por esse motivo não nos escrevemos. Não obstante, penso muitas vezes nela, ainda que muito brevemente. Tudo o que penso é sempre muito breve. Porém à noite pensei muito nela, durante horas. Passaram-se as horas da noite tão preciosas para mim devido a sua hostilidade, repetindo constantemente, com as mesmas palavras, em uma carta imaginária, certas coisas que nesse momento me pareciam de suma importância. E pela manhã recebi, de fato, uma carta sua, onde me dizia que fazia um mês que tinha a sensação de que deveria vir ver-me, uma observação que coincidia curiosamente com certas coisas que eu havia sentido.

Este incidente da carta me levou a escrever uma também, e já que havia me decidido, como não escrever a você , senhora Milena, a pessoa quem, talvez, mais gosto de escrever (dentro do que possa alguém gostar de escrever, o que, não obstante, vá somente para os fantasmas que rodeiam com avidez meu escritório). Seu Kafka.

In Cartas à Milena, Franz Kafka.

Nenhum comentário:

Postar um comentário