domingo, 25 de setembro de 2011

A CASA... e a saúde.


 
“A infância é certamente maior que a realidade. Para experimentar, através de nossa vida, o apego que sentimos pela casa natal, o sonho é mais poderoso que os pensamentos. São os poderes do inconsciente que fixam as mais distantes lembranças. Se não tivesse existido um centro compacto de devaneios de repouso na casa natal, as circunstâncias tão diferentes que envolvem a vida verdadeira teriam confundido as lembranças. Afora umas poucas medalhas coma efígie dos nossos ancestrais, nossa memória de criança contém apenas moedas sem valor. É no plano do devaneio, e não no plano dos fatos, que a infância permanece em nós viva e poeticamente útil. Por essa infância permanente, preservamos a poesia do passado. Habitar oniricamente a casa natal é mais que habitá-la pela lembrança. É viver na casa desaparecida tal como ali sonhamos um dia.
Que privilégio de profundidade há nos devaneios de criança! Feliz a criança que possuiu, que realmente possuiu as suas solidões! É bom, é saudável que uma criança tenha suas horas de tédio, que conheça a dialética do brinquedo exagerado e dos tédios sem causa, do tédio puro. Em suas Memórias, Alexandre Dumas diz que era um menino entediado, entediado até às lágrimas. Quando sua mãe o encontrava assim chorando de tédio, perguntava-lhe:
- e por que é que Dumas está chorando?
- Dumas está chorando porque Dumas tem lágrimas – respondia o menino de seis anos.
 Esta é sem dúvida uma anedota como tantas outras contadas nas Memórias. Mas como ela marca bem o ‘tédio’ absoluto, o tédio que não é o correlativo de uma falta de amigos para brincar! Não existem crianças que deixam o brinquedo para ir se aborrecer num canto do sótão? Sótão dos meus tédios, quantas vezes senti tua falta quando a vida múltipla me fazia perder o germe de toda liberdade!”

In Gaston Bachelard, A poética do Espaço, Martins Fontes, SP, 2008.

Temos pensado: e o espaço doméstico? Disseram pra mim: foi para o espaço!  Estou chocada; duas vezes. Com a verdade, e com a linguagem. Então... Repetimos: preocupa-nos algo chamado EDUCAÇÃO. E eu aqui pensando: ‘vamos socializar, vamos para a aula disso, disto, daquilo, de lá, de cá... Vamos aprender dançar, nadar, saltar, correr, ganhar, vencer, vamos falar inglês, francês, mandarim e... Vamos, vamos, estamos atrasados, e a festa? Ai que horror, e o trânsito? Não vai dar tempo!... E O DEVANEIO?

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