sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Décimo sexto sonho:


Era sempre noite. Era sempre tarde; sempre obrigação. Tudo era prisão, precisão. Negação. Difícil dormir, mais difícil sonhar. Levantava-se antes do sol e caminhávamos até o fim do mundo, em fila indiana, pés atados, cabeça baixa, boca calada. No fim do mundo, sentávamos em bancos tortos, ouvíamos gritos, xingamentos, humilhações, dizíamos ‘amém’, era obrigatório, ‘sim, senhor’. Depois do fim do fim do mundo, voltávamos pelo mesmo caminho, pela mesma fila, agora na direção ao início. Chegados aqui, mais noite. Mais opressão. Assim eram as horas naquele tempo. Nada se passava, tudo era um mesmo. Mas naquele instante, um segundo apenas em que um olhar doce azul olhou meu olhar castanho medo e disse ‘existem cores’, as paredes começaram a se rachar e se abriram janelas, e nas janelas nasceram flores, e houve escadas, escaladas e pedras aladas. E foi-se embora a obrigação e a opressão. E o circo chegou... E o palhaço, que era o bobo da corte, abusou da prisão, e disse que alma não conhece paredes, o trapezista atravessou dançando o caminho do fim do mundo, e chegou ao começo, que deixando de ser começo virou princípio, e dançarina, que sou eu, quase morreu de rir da tristeza boba da primeira noite. E tudo se fez agora.


Janelas Abertas Número 2


Sim, eu poderia abrir as portas que dão pra dentro
Percorrer correndo os corredores em silêncio
Perder as paredes aparentes do edifício
Penetrar no labirinto
O labirinto de labirintos
Dentro do apartamento

Sim, eu poderia procurar por dentro a casa
Cruzar uma por uma as sete portas, as sete moradas
Na sala receber o beijo frio em minha boca
Beijo de uma deusa morta
Deus morto, fêmea de língua gelada
Língua gelada como nada
Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília
Em cada uma matar um membro da família
Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia
O que aconteceria de qualquer jeito


Mas eu prefiro abrir as janelas prá que
entrem todos os insetos


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