quarta-feira, 7 de setembro de 2011

DESEJOS EM 7 DE SETEMBRO


 Cidade prevista
 
Guardei-me para a epopéia
Que jamais escreverei.
Poetas de Minas Gerais
E bardos do Alto Araguaia,
Vagos cantores tupis,
Recolhei meu pobre acervo,
Alongai meu sentimento.
O que eu escrevi não conta.
O que desejei é tudo.
Retomai minhas palavras,
Meus bens, minha inquietação,
Fazei o canto ardoroso,
Cheio de antigo mistério
Mas límpido e resplendente.
Cantai esse verso puro,
Que se ouvirá no Amazonas,
Na choça do sertanejo
E no subúrbio carioca,
No mato, na vila X,
No colégio, na oficina,
Território de homens livres
Que será nosso país
E será pátria de todos.
Irmãos, cantai esse mundo
Que não verei, mas virá
Um dia, dentro em mil anos,
Talvez mais... não tenho pressa.
Um mundo enfim ordenado,
Uma pátria sem fronteiras,
Sem leis e regulamentos,
Uma terra sem bandeiras,
Sem igrejas nem quartéis
Sem dor, sem febre, sem ouro,

Um jeito só de viver,

Mas nesse jeito a variedade,

A multiplicidade toda

Que há dentro de cada um.
Uma cidade sem portas,
De casas sem armadilha,
Um país de riso e glória
Como nunca houve nenhum.
Este país não é meu
Nem vosso ainda, poetas.
Mas ele será um dia
O país de todo homem.

In A Rosa do Povo, Carlos Drummond de Andrade, Record, RJ, 1987.
 

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