segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Drummond e primavera...

 
Entre Flores 

As flores estavam inquietas porque o arquiteto-paisagista havia projetado uma flor diferente de todas as existentes. O projeto fora encaminhado à comissão de notáveis, que deu parecer sugerindo a adoção da nova flor como a primeira do país e seu símbolo oficial.
‘Com uma flor diferente de nós todas e erigida em marca nacional – murmuravam a um só tempo os crisântemos, as dálias, os cravos e muitas outras espécies, inclusive a flor de fedegoso, que pelo nome não era muito apreciada – institui-se discriminação no reino vegetal. Além do quê, flor sintética não é flor que se cheire’.
A rosa não quis opinar, porque ainda conversa ilusões de rainha. Uma deputação de flores procurou o arquiteto-paisagista, que se recusou a recebê-la, mandando dizer que estava muito ocupado. Seguiu-se a greve floral durante 45 dias, em que ninguém mandava flores ou tinha condições de colhê-las, pois todas passaram a ter espinhos, e algumas, cheiro de enxofre.
Mesmo assim, a flor de proveta foi institucionalizada, em muitas variedades, como a cinerária, o lírio amarelo e o jacinto, que antes formavam no coro das reclamantes, levaram-lhe cumprimentos no dia de sua glorificação. Os espinhos e o mau odor desapareceram, e até a rosa lhe mandou telegrama de parabéns e votos de eterno florescimento.

In Contos Plausíveis, Carlos Drummond de Andrade, José Olympio, RJ, 1985.

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