quarta-feira, 28 de setembro de 2011

FRAGMENTOS DE UM SOLO

  1.

Este elevador sempre demora. Em meio aos vaivens do carro tentando se encaixar eu pude me lembrar do medo engolido a seco e embrulhado em atrevimento, diante do examinador do Departamento de Trânsito, sempre um homem, quando eu, mulheróide de dezoito anos, tentava habilitar-me a dirigir um carro, e a década era setenta. Ou seja, há mais de dez anos e... Não quero me lembrar da década de setenta agora. Este elevador que não chega! E aquele homem do departamento se obrigando a estar preocupado antes com as minhas pernas, impunha a nós dois uma piada de mau gosto e eu, me obrigando a enfrentá-lo. Mas por que será mesmo que a coisa toda se passava sempre num enfrentamento? Eu aprendi a manter o autocontrole, de certa forma, colossal, digamos. Mas acabei por aprender também a me sentir uma barata, isto é, uma barata, aquela espécie que, apesar da caça universal, resiste. E sobrevive, até à bomba atômica, dizem. Bem que um dia  eu pensei em matar o Kafka, até entender que as baratas me perseguiriam apesar do assassinato dele. Quero me redimir: eu amo Kafka. Essa história de se sentir uma barata que resiste ao nuclear pertence ao ‘a mais’ que é parte do feminino. E agora eu gostaria de matar o Freud. O toque feminino. Nada, não quero matar a ninguém, e já penso que quem me salva é Freud. Ainda que pouca gente entenda isso. Chegará o dia que não me importarei com quem me entenda ou não. Maldito elevador. Aquele ‘a mais’ que é parte do feminino (há quem pense que é ‘a menos’... eu disse que pouca gente entende) ficou por demais complicado para aquelas mulheres, ou melhor, para essas mulheres. Pra mim. Muito complicado. Expressar um excesso inexprimível e mais, de modo sexualmente explícito, é verdadeiramente um exagero. E me explicaram que toda mulher é exagerada. Tipo Cazuza?  Preciso me lembrar de que os homens de nossas mães, nossos pais, vieram da guerra. Acho que por muito tempo confundi tudo isso com país. Eu demorei muito a me considerar apta para dirigir um carro. Esse registro era escândalo no imaginário dos humanos. Ah, mulher no volante! E tudo ficou antigo. Quiçá incompreensível.

Magda Maria Campos Pinto 


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