quinta-feira, 29 de setembro de 2011

FRAGMENTOS DE UM SOLO

 2.

Apesar de tudo, exibia para os colegas minha máscara mais detestável, que eu nomeava ‘impávido colosso’. Horrível. Mas era assim que eu ainda, às vezes, era. Verdade que, naquele tempo, já me equilibrava melhor sob a armadura e, pelos olhos, deixava escapar algo. Eu me traia, e derramava a fluidez do meu jeito ingênuo e bobo de ser. Mas só com os olhos. E pode ser que isso não fosse exatamente um avanço, pois me via embaraçada na armadilha dos olhares. Fosse por pura maldade , fosse para me obrigar a sustentar o que eu, disfarçadamente, expunha, as pessoas podiam ignorar a minha entrega. E eu, impedida de me certificar daquilo que entregava, ficava tolhida em minha confissão. Ficava à mercê da bondade alheia, aprisionada na teia dos reflexos óticos. Por ainda não ter aprendido a falar com a boca, estava obrigada a vestir o impávido colosso.
Dentro da turbulência que só o impávido colosso conseguia disfarçar, eu tentava usufruir da carta imaginária. Uma respiração lenta. Um coração disritmado. Um prosaico friozinho na barriga, e eu sabia que havia muito mais a sentir... Mas de nosso olhar não temos retorno. Não tão facilmente. Nem no espelho, pois aquele que nos olha é sempre um estranho. Há que se encontrar um estranho que nos veja como o vemos. Já disse isso antes. Já o disse mil vezes. Ando a me repetir. Repito: é mais fácil ouvir-nos, isto é, não tão fácil, é um exercício demorado, mas... Nossa! As pessoas da reunião, de repente estão caladas. Estão me olhando. Reinventei uma naturalidade que sorria e devolvi o relatório ao chefe. Reunião, e eu sonhando poesia.

Magda Maria Campos Pinto

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