sexta-feira, 30 de setembro de 2011

FRAGMENTOS DE UM SOLO


 3.

De qualquer maneira, eu me escondia mais e mais. Sobrava-me o sexual. Queria transar. Por que não? Repetia eu à distância, e ele vacilava, mas sem se atrever a sentir o medo que sentia. Eu o obriguei. A maior violência a que nos submetemos. Depois disso, o orgasmo virou uma quimera, e começamos uma atribulada, confusa e entediada vida sexual. Eu me sentia culpada. Ele se sentia aterrorizado. Mas ninguém se atrevia a sentir o que sentia. Ser barata na vida tornou-se um fato. Histérico, mas um fato. E os homens começaram a crescer proporcionalmente ao susto que sentiam quando eu me mostrava a eles. Barata. Proporcionais também ao crescimento da minha culpa e seus pânicos. Um dia um deles me perguntou: mas que diabo você pensa que é? E eu lhe respondi histericamente de verdade: um pobre ser que se percebe barata e que gostaria que você o tirasse dessa. Foi o suficiente para que ele quase morresse de pneumonia. Éramos patéticos, em seu sentido mais estrito. O jogo eu-bato-depois-é-a-sua-vez era jogado em muitas versões. Por exemplo, havia a versão DOPS. Quem sabe o que é isso hoje? (ontem?). Bom, dizem-me: passou. Eu digo passou. E desculpem as cicatrizes. Mas de fato muito tempo depois as coisas ficaram mais claras e entendemos que, de início, nós só podíamos gostar da dor. Cada um a seu modo. E isso, para piorar, era ontológico, diziam alguns que se queriam filósofos, para si mesmos, e para nós todos. À guisa de consolação. E nos consolávamos, de alguma maneira. Talvez com um pouco mais dor. De repente me lembro de um homem que não quis jogar. Tenho problemas com a memória. Lembro-me em excesso e fico perdida entre imagens, sons, cheiros, devaneios, verdades e violências. Ele não quis jogar, acreditava na paz, na felicidade, no entendimento. Eu o odiei, ele não me entendeu. Eu o odiei mais. A paz? Risível. Onde tudo era brutalidade, arrogância e competição ele queria amar. Ah, minha contradição. Ah, minha vã filosofia! Nada tão verdadeiro quanto minha filosofia. Ah... Minha mentira. Nada tão sincero quanto minha filosofia, e ninguém mais mentirosa que eu, meu feminino eu. Eu disse que chegaria o dia em que não me importaria ser ou não compreendida. Eu disse. E não pedirei desculpas por ter sobrevivido. Drummond pediu. Não peço, e hoje quero apenas uma maneira de não ceder em meu ódio, e de não ser vencida por minha proverbial (e imodesta) bondade.

Magda Maria Campos Pinto 


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