segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A INVENÇÃO DE ULISSES - cap.1

 
 No romance que Estevão tentava escrever ele integrava cartas que gostaria de ter escrito ao seu pai. Na verdade, ele escrevia o romance para salvar-se do ódio que sentia por seu pai, e por isso inventou um personagem chamado Ulisses a quem escreveria cartas, e de quem receberia cartas. Como sabemos, Estevão dependia em tudo da opinião de Wolf, e a este submetia cada frase que conseguia escrever. Wolf escrevia muito bem, com facilidade absurda, que Estevão invejava e não podia compreender. A questão é que Wolf nunca quis escrever, por isso pouco se lhe dava se escrevia bem ou mal; de fato, nunca soubemos bem o que Wolf queria, ou sabíamos muito bem, como ele dizia, ou seja, Wolf não queria nada. Ele dizia haver riscado de sua vida o verbo querer.  Estevão tentou parar de escrever várias vezes, não queria sofrer mais, não suportava, e Wolf o obrigava a voltar; obrigava é apenas uma maneira de dizer, pois Estevão queria escrever, precisava escrever. No fim e por fim, o romance de Estevão estava sendo escrito, e pouco falava em Ulisses, seu pai de mentira, e falava muito de todos nós, ou melhor, de nós, seus poucos amigos. Bons e maus amigos. Algumas vezes amantes, outras vezes rivais. Escreveu o assassinato de Lóri, e encarou a violência urbana de nossos dias. Quis se vingar de Wolf, eterno amor de Lóri, e amando-a eternamente. Apiedou-se de Pedro, sabendo que ele e Pedro não conheceriam o amor. Ulisses, seu pai inventado, mas cheio das verdades de seu verdadeiro pai, conheceu o amor. E agora, aos 77 anos, morrendo de câncer, e continuando a vida sem mudar nada, nada, nada, Estevão o procurava tentando resolver o próprio enigma. Por que não conhecera, - e sabia que não conheceria -, o amor? O que Ulisses poderia lhe responder? Lori e Wolf sabiam do amor, e mais ainda, se amavam. Ele e Pedro enlouqueciam tentando amar, e nada acontecia. Ulisses amara sempre. E por isso, também saberia morrer. Tudo isso que conto agora são as idéias de Wolf; são palavras ditas por ele a mim, depois da morte estúpida de Estevão, naquela curva escura, daquela estrada absurda, naquela madrugada chuvosa. Wolf conseguiu os secretos rascunhos de Estevão, de onde só me mostrou falsas cartas. O resto, penso eu, é tudo imaginação de Wolf. Ele disse que existe um romance, mas em outra língua. Insisto que isso é invenção de Wolf. Na qual me apoio. Da qual, vivo.

UMA
Ulisses,
Resolvi lhe escrever, mas tenho medo de lhe mostrar minhas dores. Melhor, tenho vergonha de lhe contar que as sinto. Já lhe confesso, portanto, desde já: muitas vezes me sinto um parvo. Um idiota, um tonto a quem falta chão. E isso acontece, - agora eu penso assim -, porque é coisa de amor. Mas também é coisa que vem de você. Talvez sejam a mesma coisa. Melhor rasgar rapidamente. Melhor saltar no abismo se já peguei a página em branco e, obedecendo a Wolf, me imponho a escrita. Não te parece coisa de veado? Ai, meu pai... Como não mostrar essa hemorragia interna que se faz cachoeira em mim? Pai e filho: essa irreversibilidade única, esta eterna sina. Irreversivelmente, pai e filho. Pra mim, pensando em você, é muito bom que seja assim. Mas quando penso nela, na minha mãe, sinto-me comovido. Não, sinto a dor absurda. Dói a pele, que fica, de repente, pequena. Quando penso nela, a mãe, e penso no irremediável, solto um ahh desalentado. Lembro-me a primeira vez que lhe estendi a mão, lembro-me de sua mão, Ulisses. Inesperadamente macia. Grande e quente. Definitivamente firme. Lembro-me do mundo que a boa mão me deu, querido pai. Responda-me afinal: não te parece coisa de bicha? Não se trata de minha opinião, elas são claras e puras a respeito. Interessa-me a sua opinião. Abraço de seu filho, Estevão. 

Magda Maria Campos Pinto

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