quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A INVENÇÃO DE ULISSES – CAPÍTULO 3

QUATRO

Ulisses,

Ainda lhe escrevo. É exatamente o que eu penso: câncer é uma pergunta mal formulada sobre a morte. É a trilha que vislumbro pra nós dois, querido pai. Volto a pensar que , antes de Lóri, sofrer era o único modo de viver. Ela dizia que havia dois modos de ser: o palco e a platéia. E que já conseguira se decidir: estava na platéia, e assim estava livre. Eu ainda não havia descido do palco, e repetia a mesma peça, o mesmo roteiro... O roteiro de sempre, velho pai, o roteiro da dor. Você sabe, junto com Pedro e Wolf, desenvolvi uma complexa e furiosa estética da dor. Uma estética que Lóri pôs a perder, um olhar de Lóri desmontou toda nossa existência , querido pai. Lóri foi mulher de nós três; fomos enquanto Lóri foi. Depois que ela se foi, deixamos de ser. Wolf ouve catatonicamente a mesma canção desde que de que Lóri foi morta. Pedro nunca mais fez a barba, nem diz ah, e agora sempre tem um Jack Daniel’s, como se não fosse por ela. Quanto a mim, lhe escrevo. Não sou capaz de mais que isso. Lóri foi morta por uma operação de violência urbana. Mas nós três sabemos que ela, no mínimo, reagiu. Ou pior, ela provocou. Nós três o sabemos. Sinto mágoa, horror e saudade. Não compreendi quase nada do que Lóri fazia ou dizia, mas estar com ela era tão simples, seguro, era sublime como um improviso de sax, ora, ora, que sei eu!, sei que você sabe o que seja um improviso de sax, ela também o sabia, e sei que ela queria morrer. E eu continuo melancólico e inerte. Sentindo-me ridículo, culpado, nefasto. Assim é um câncer... ridículo, culpado, nefasto! É isso, meu pai, Lóri me levou ao improviso. O estranho é que lembrá-la me coloca a pensar compulsivamente em você. Intuo uma estranha e confusa relação entre Lóri e você. Sabe por que que Lóri morreu? Porque cismou de não se vender. Você não dizia que um homem que é um homem não se vende? Estevão, seu filho (que ainda não se vendeu).


CINCO

Ulisses,

Argh, desculpe aquele vômito horrível da carta anterior. Esquece, é coisa de bicha. Estou envergonhado e não quero escrever, mas te mando uma carta que escrevi pra Lóri; guardei a cópia, acho que escrevi pra mim mesmo.

Querida Lóri,

Estou aqui pensando (e só a você ouso dizer o que eu estou aqui pensando, quase escrevi penando) se toda a desdita de minha vida se deve a cartas ou à vontade escrevê-las. Isso, disse-o Kafka, com o gênio de acrescentar que o dizia como um comentário interessante, e não como um lamento. Não sou genial e, portanto não apenas o copio como creio que faço disso um lamento. Lamento que eu espere cartas e mais cartas, que eu não possa escrever ininterruptamente, lamento que não me escrevam sem parar e por fim, lamento que eu não saiba escrever. Por isso, eu apenas copio. E saiba, Lóri, copio em especial para você. Aliás, é necessário confessar-lhe que eu lhe devo a absolvição da culpa de não ser capaz senão de cópia (lembra-se? Foi você quem me disse que copiar pode ser não plagiar... e em você, eu sempre creio) Então, eu copio com a dignidade de quem cria: as palavras dão mordidas no real, aprender a falar é freqüentar o clube dos perdedores, há que se ter elegância e isto é horrivelmente difícil. Pois se trata de entregar-se, when the lights go down, eu te vejo sumir por aí, te avisei que a cidade era um vão, tenho medo de que você não resista... seu, Estevão.

Argh, releio e aumenta minha vergonha. Isso é tom de homem??? Estou arrasado; você não vai me dizer nunca o que é um homem? Seu filho.

Magda Maria Campos Pinto

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