domingo, 18 de setembro de 2011

A INVENÇÃO DE ULISSES – CAPÍTULO 4


SEIS

Ulisses,

Esforce-se para compreender. Eu encontrei uma pessoa, aos 43 anos, exatamente como eu havia imaginado, desde sempre. Foi encontrar a mim mesmo, e mais precisamente, encontrar-me numa mulher. E antes, eu estava só. É. Ainda não consigo explicar-lhe melhor. Talvez seja a distância entre o palco e platéia. Era como se a alma se lhe tivesse escapado do corpo e me envolvesse. A alma, apenas alma, uma presença insólita. Eu também não estava ali, isto é, eu deixara de ser palpável, corpóreo. Estávamos mudos. Eu dirigia o carro por avenidas que me pareciam vazias e ela ali, calma, sentada ao meu lado, com aquele seu jeito de se imobilizar que parecia lhe diminuir, lhe amolecer... É, Lóri, de repente, sabia ser de outro modo, em estado sólido. E nestas horas, ela ficava sendo pura presença. Você está imaginando a platéia, no escuro, diante da luminosidade do palco? E o ator em seu solo? Era assim. Lori ficava ali, mas ao mesmo tempo não estava ali, e deixava todo o espaço para mim. Tudo isso eu vivi diante de Lóri, naquele bar, bebendo daquele whisky de que ela gostava (acho que foi o Pedro que ensinou isso pra ela), envolvido inteiro pela alma que ela entregava. Invejei Lóri. Ela sabia desistir, já desistira de companhia para sonhar, de companhia para ser. E ela vivia inteira a própria orfandade. Não se ocupava de si, já se sabia só. Começo a compreender, senhor meu pai. Lori conseguiu livrar-se da herança. À Lori não importava mais espaço e tempo. Mas nunca me abandonou , deixava ser o que eu quisesse ser, ou conseguisse, e assistia. Argh... Uma peça mal escrita. Eu, um péssimo ator. Terei, portanto, de lhe escrever até que me livre deste roteiro nauseabundo. Seu filho, Estevão.

SETE

Ulisses,

Você vai morder-se de inveja. Ah, ah, ah... Leia isto.

Querido Estevão,

Eu me senti completamente completa! (riu?) Foi assim. Eu me desdobrei em você, e fui assim: o corpo miúdo, uma falta de peso, um amolecimento, dengo, vontade de colo, de manha, um desejo de quero mais, a alegria de ser mais do que eu sou, ora!! Que sei eu de mim!! Mas lhe reafirmo, naquela hora, havia apenas eu no seu mundo. Digo-lhe: foi acúmulo de alegrias, mal cabendo em mim, as alegrias se acotovelavam dentro de mim. Assim, de tantas que você me deu. Foi um em exagero encontrar-me assim no olhar de alguém que me estranhou. Ps1: penso que os pais ficam mais tristes que as mães quando nascem os bebês, mas... O resto da história é muito longo, conversaremos noutra hora. Ps2: os espanhóis chamam sentir saudade de ‘extrañar’, as palavra s me seduzem porque dentro delas encontro tudo o que existe. Sua (achei isso antigo e bonito), Lóri.

Viu, Ulisses? Viu o tamanho grandão que ela dá à gente? Estevão.

Magda Maria Campos Pinto



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