terça-feira, 20 de setembro de 2011

A INVENÇÃO DE ULISSES - CAPÍTULO 6

DEZ

Querido Ulisses,
Leia e veja o quanto parece que foi você quem o escreveu.
Querido Stiive,
O leão de hoje é gigante. Recebeu o poema de Pessoa? Sei, agora preciso dizer-lhe urgentemente que : ‘acordei hoje a chorar’ (mais um parêntese pessoniano, perdoe-me, mas sabes o quanto eu gosto de copiar). Acordei hoje a chorar, e agora não é mais um parênteses. Ps1: acordei hoje a chorar. Desculpe-me. Tenho medo de lhe afogar em palavras e papéis. Não me contenho, ainda não. Luto por isso, vou me conter, quero me conter, dizem que me contenho, mas não o creio, não o sinto. Enfim, digo: não me contenho, e temo lhe afogar, a ti que me suporta, que me acolhe. A ti, que és tão bom. A tarde está fresca e bonita. Felizmente o texto terminou antes que eu me exaurisse. Estou feliz por isso, comecei a ler, ou seja, a reler (como você sabe, e apenas releio) e de repente, quero escrever mais. Reli Rilke e preciso lhe enviar o que reli. Aproveito para lhe dizer que compreendi Rimbaud, oh... eu o compreendo, e é possível que você tenha razão e ele seja tão incompreensível para os humanos homens quanto o são os humanos mulheres para os humanos homens. É uma pena. É assim como eu sou, isto é, impenetrável para os humanos mulheres. Tu sabes, eu amo os humanos homens, mas... bom, os humanos mulheres são difíceis pra mim. Me fecho. Não é preciso se entristecer por causa disso; existem humanos homens tão femininos que acabam por me redimir. Mas confesso que por vezes é desesperador. Mas, voltando a Rilke, roubei dele para você porque eu sei que irá lhe fazer bem (sei que estará pensando: o que tem Rilke a ver com Rimbaud? Eu lhe digo: nada, ou tudo se quiseres, isto é, a poesia, e por brincadeira, o R do nome. Não lhe bastam?) Você me absolve desta absurda e cansativa fragmentação? Eu te amo por isso. Sim, fui além da digressão, hoje sou a própria e concreta fragmentação.
“À memória de meu pai
I.                    Tocá-lo, acariciá-lo. Ouvi-lo, não posso. Nem mesmo ver. Só pensá-lo. Resta-me o silêncio. O inviolável silêncio que se recolheu no espaço. Imóvel que virou este corpo, este homem, este pai, este sentimento.
II.                  Sentir é janela por onde a morte mantém a vida; a vida verde onde teus bois, ainda os mesmos, ruminam o capim gordura e engordam sem teu olho.
III.                Imagens tuas, resguardadas do meu olhar, foram se desfazendo: brancas na fronte, trêmulas nas mãos, pálidas nas faces, esguias no corpo. Partida de Saudade! Você substituía, se preparava para terminar, mas eu não sabia ver... Um olhar de fresta assustava diferenças. Está mais magro?! Está mais triste?! Está mais vago?! Está mais febril?! É certamente a roupa mais velha! É certamente a roupa mais velha! É o desbotamento de tantas mágoas! Mágoas passadas, alinhavadas pelo ziguezague da dor. Mas era mais que a dor, era a morte.”
E agora estou pensando que eu lhe deixei triste, talvez magoado. Não vou me desculpar. É isso. Você não tem medo morte, mas teme a morte dele. Talvez ele não te desculpe por isso. Quer tempo pra se vingar? Perda de tempo, vocês se amam. Eu te amo. Lóri.
Ulisses, estou só do só assim. Isso me desespera. Hoje, o mundo me vem como você, sim, todo o mundo é você. Você está em todos os cantos, em todas as horas, em todas as pessoas. E dentro de mim. Está em Lóri, e Lóri em você. Ah, desejo de desaparecer. Talvez, não ser covarde fosse ter os fantasmas por companhia sem sentir frio. Mas que idéia é essa sua... Ter câncer. Com amor, Estevão.
Ps2. Stiive é como ela gosta de soprar em meu ouvido...

 Magda Maria Campos Pinto

Nenhum comentário:

Postar um comentário