quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A INVENÇÃO DE ULISSES - CAPÍTULO 7 - FIM

 
ONZE

Ulisses,
Não consigo te escrever, nem consigo não te escrever. Resolvi te escrever as nossas cartas. Eu preciso de você. Droga, inferno, horror. Mas eu preciso de você.
Lóri,
Sonhei com Ouro Preto. Estava frio e úmido. Estava embaçado como a minha infância. Mas depois em mim acendeu-se uma luz pequenina, como lume de lamparina de azeite. Poder ser, Lóri? Pode-se viver lá em Ouro Preto? Pode-se morrer lá? Esta é a questão, meu amor, como viver onde não se quer morrer? E eu não quero morrer lá. Estevão.

Stiive,
Você é um... Eu sabia: um triste. Assim como eu. É triste ter que partir para morrer. Mas... Comigo, assim se deu. E agora, você com essa... Deu-se também com você. Será que somos poucos? Acho que não. É, você é assim como eu. Não acredito mais naquela história de que terra natal é ficção; concordo que é uma ficção bonita, mas tenho que admitir que acreditar em terra natal, amar a terra natal é bem consolador. Mas conosco não é assim. Hoje acordei cantando e pensando na palavra que ainda não foi dita. Lóri.

Pobre Ulisses, rio de você. Como quem ri de si mesmo. Estevão.

DOZE

Ulisses,
Ouça-me, meu pai: quando eu a encontrei senti-me embriagado. E compreendi sua trincheira contra o poço fundo, profícuo, morno e estonteante que são as mulheres. Um poço que Lóri, despudoradamente, exibia. Ela se mostrava a mim com franqueza. Fazia-me examinar cada reentrância que trazia. Você conheceu o farto seio da mulher, não é? Sinto-me como se tive morrido e você, enfim, se me revelasse humano (do tipo humano mulher). Estevão.
P.S: Rio de seu escândalo dessa hora. Rio-me também por ter descoberto seu amor por mim, e meu amor por você. Sem escândalos, nem dramas.

TREZE

Ulisses,
Lóri,
Você é a minha utopia. Salva-me de mim (estou copiando de novo: agora o Pessoa, não é? P.s 1. Mas o fato é que até agora ninguém me suportou. Pedro dizia de mim lago que só compreendi depois que lhe encontrei [eu já te contei isso?] : a insuportável leveza de Estevão... A vida é ridiculamente cruel,. Mas o mais difícil é descobrir agora, neste momento cruel, que eu não tenha nada a lhe dizer. Ou melhor, eu quis matar o Pedro, mas pensei que ele te ma, não posso matá-lo. Aliás,não pude nem mesmo a mim. Ulisses sabe morrer, querida Lóri. E mais, tentar ensinar-me. Você consegue compreender algo assim? Pois foi o que aconteceu, trata-se de tanto amor que mal posso suportar. Estevão.

Creio que é uma graça (quero dizer um dom, entende?), uma doce e invejável loucura morrer por uma mulher. Você concorda Ulisses? Por que você está morrendo, Ulisses? Eu penso que não vou suportar. Sim, eu sei que terei que suportar, assim como sei o que você tentou me ensinar, mas...

Magda Maria Campos Pinto


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