terça-feira, 13 de setembro de 2011

A INVENÇÃO DE ULISSES - CAPÍTULO II



 DUAS

Ulisses,
Uma mulher exigiu que eu me traduzisse. O nome dela é Lori, ou melhor, era, porque ela morreu. Dói mais ainda porque penso que ela morreu duas vezes para você, que não a conheceu. Você a amaria como eu a amei. Revejo seu olhar sacana, é verdade, Lori tinha cios... Você tinha razão. Mas prepare-se: a sua razão não lhe deu Lori, e é que Lori não saía do cio. Xeque-mate. Eu a tive, meu pai. Você não sabe o que foi ter Lori. Triste xeque. Eu a perdi. Estevão.

 TRÊS

Ulisses,
Lori exigiu-me uma tradução porque não quis nada de mim. Isso, ela não precisava de mim. E eu não sabia ser sem que precisassem de mim. Você sabe bem o porquê disso. Como ser sem que uma mulher esteja no comando? Ah, meu pai... Por que você não mo diz? É tarde, caíram todas as máscaras, todo mundo sabe disso, e estamos condenados, essa é a verdade. Lori, entretanto, soltara-se de tudo. Descobrira em Clarice um propósito de vida , e o cumpriu completamente: “Não é por nada que eu olho: é que eu gosto de ver as pessoas sendo. Há um grande silêncio dentro de mim..”. Lori olhava para tudo isso que a gente vê, mas via tudo diferente. Agora, depois de Lori, todo o meu tumulto afetivo em relação a você tornou-se apenas necessidade de cartas. Lori seria assim. Franca e absurda. Seu absurdo era uma delicada sinceridade. Um absurdo sempre inesperado. Ela amava o absoluto, acreditava nele, e vivia assim: ‘não sei...’, de forma absoluta. Pai, gemo como um cão faminto, torço meu corpo em trapos, gemo como quem se sabe ridículo, mas, não suporto, eu a perdi. E você nada faz por mim. Estevão.

Magda Maria Campos Pinto

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