quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Mais primavera e poesia...

 

2º Motivo da Rosa
Cecília Meireles


A Mário de Andrade
 
Por mais que te celebre, não me escutas,

Embora em forma e nácar te assemelhes
À concha soante, à musical orelha
Que grava o mar nas íntimas volutas.

Deponho-te em cristal, defronte a espelhos,
Sem eco de cisternas ou de grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
Ofereces às vespas e às abelhas.

E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
E cega e bela e interminável rosa,
Que em tempo e aroma e verso te transmutas!

Sem terra nem estrelas brilhas, presa
A meu sonho, insensível à beleza
Que és e não sabes, porque não me escutas...

In Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, Objetiva, RJ, 2001.

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