quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O museu da Inocência II


“Gostaria agora de dizer algumas coisas sobre nossos beijos, embora tenha alguns pruridos que me levam a evitar a trivialidade e as confissões mais vulgares. Quero contar minha história de um modo que faça justiça a seus aspectos mais sérios relacionados ao sexo e ao desejo: a boca de Füsun tinha o sabor de açúcar de confeiteiro, devido, acho, aos chicletes Zambo de que ela tanto gostava. Beijar Füsun não era mais uma preliminar destinada a atiçar e manifestar nossa atração recíproca; era uma coisa que fazíamos pelo prazer de fazer, e quando nos amávamos ficávamos ambos espantados de descobrir a verdadeira essência do amor. Não era apenas nossas bocas molhadas e nossas línguas que se entrelaçavam, mas nossas respectivas memórias. Assim,toda vez que nos beijávamos,primeiro eu a beijava da maneira como se encontrava à minha frente, e depois da maneira como existia na minha memória. Em  seguida, abria os olhos por um segundo para beijar sua imagem de um momento antes, e depois, uma imagem da memória mais distante, até que a lembrança de outras moças parecidas com ela se combinassem com essas memórias e eu as  beijasse também , sentindo-me mais viril ainda por beijar tantas garotas ao mesmo tempo; a partir daí, ficava fácil beijá-la como eu fosse outra pessoa, enquanto o prazer que extraia de sua boca de criança, de seus lábios carnudos e de sua língua travessa aumentava minha confusa  e alimentava pensamentos que até então eu ignorava (“Ela é uma criança, era um desses pensamento – ‘sim, mas bastante mulher’, era outro), e o prazer ia crescendo até abarcar as várias personas que eu adotava quando a beijava, e todas as Füsuns rememoradas que evocava a cada beijo seu...” (...)

In Orhan Pamuk, O Museu da Inocência, Companhia das Letras, SP. 2011

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