terça-feira, 27 de setembro de 2011

Sobre quem está em apuros por excessos: Letícia Sorg. Contribuição de Gisella.



“Neste fim de semana tomei um susto ao olhar a caixa de e-mail. O Facebook tinha me escrito. Não era para avisar que alguém tinha enviado uma mensagem, deixado um recado nem nada do gênero. Era para reclamar da minha ausência. O e-mail dizia:
“Olá, Letícia, você não acessou o Facebook nos últimos dias; várias coisas aconteceram na sua ausência.” De fato. Vários amigos – muito ou nada próximos – dividiram seus pensamentos, suas atividades, suas fotos. Suas alegrias, tristezas, reclamações. Seus gostos e desgostos. E eu não estava lá para ler. Pensei: “Que bom”. Cogitei até responder à mensagem automática: “Olá, Facebook, várias coisas aconteceram na minha vida na sua ausência.” Coisas. Nada fora do comum. Não viajei, não fui a nenhum show ou restaurante estrelado. Mas fiz algo extraordinário nos dias de hoje: fiquei só comigo mesma, e meus pensamentos. Você se lembra quando foi a última vez em que fez isso?
Costumávamos ficar sozinhos nas filas de bancos, supermercados. Nas salas de espera de médicos, dentistas e afins. Nos almoços e jantares sem companhia. Nas viagens para terras distantes ou nem tanto. Com o celular, não ficamos mais.
Até podemos ficar. Mas logo aquela mensagem chega, aquele aviso toca, aquele tédio bate e pronto, foi-se nosso momento a sós. E foi-se também aquele fio de reflexão que começava a se formar, aquele desconforto, aquela dúvida. Pluft. Saímos do nosso mundo interior de volta para o exterior. Fulano está no restaurante XXX. Beltrano compartilhou uma foto das férias. Sicrana recomendou um link.Há fatos e informações mais e menos interessantes. Algumas podem até ser úteis para a sua vida. Mas, sempre conectados, deixamos de perceber informações sobre nós mesmos. Do que gostamos. O que queremos. O que buscamos. Para além da próxima atualização.
Fiquei pensando sobre isso depois de ler um texto recente de Dalton Conley para a Bloomberg. Conley é cientista social e autor do livro Elsewhere, U.S.A.: How We Got From the Company Man, Family Dinners and the Affluent Society to the Home Office, BlackBerry Moms and Economic Anxiety (algo como Outro lugar, Estados Unidos: Como saímos do homem empregado, dos jantares em família e da sociedade afluente para os escritórios em casa, as mães com celulares e para a economia da ansiedade). No artigo, ele discute como a conexão constante com os outros está nos distanciando de nós mesmos.
Conley lembra que, no final da adolescência, fez um mochilão pela Europa e falava, no máximo, cinco minutos com os pais por semana. Algo como “tudo bem? tudo bem!” E não tinha um tradutor instantâneo a tiracolo para salvá-lo dos apuros em que se metia.  Nem alguém sempre disponível no Facebook com quem compartilhar o que quer que fosse. No máximo, tinha um livro, um diário ou um novo conhecido com quem topava pelo caminho.
E aquele incômodo que a solidão causava no início ia-se amainando. E ele começava a identificar quem era ele assim: livre de influências e julgamentos. Desenvolvia uma intimidade consigo mesmo, uma consciência de si próprio.
Fora do palco – real ou virtual – em que todos podiam vê-lo, experimentava outras versões de si mesmo que até então tinham ficado só nos bastidores. E conhecendo-se assim, intimamente, podia oferecer mais de si mesmo para algumas – poucas – pessoas de seu convívio.
O risco que corremos, ficando o tempo todo no palco, é acabar com a nossa coxia vazia.”

  Letícia Sorg é repórter especial de ÉPOCA em São Paulo.

Bom, seguinte: reconheço, respeito e preciso de todos os aparelhos que a tecnologia tem me oferecido. Mas repito que ODEIO encontrar alguém que esteja com o celular ligado; recuso-me a dividir a minha companhia seja com quem for que traga algum teclado pendente em seu corpo. Eu quero conversa, diversão e arte... E muitas vezes quero ficar sozinha comigo mesma, sem ser interrompida, pois tenho muito o que me dizer. Em tempo: há uma piada familiar na qual sou a vítima dos risos, vem desde os tempos em que eu reclamava aos brados dos cumprimentos, falas e tais que as tais máquinas nos dirigem quando chegamos ou saímos de algum lugar, tipo shoppings e etc. Pois é, faz tempo... e continuo reclamando. Não gosto de conversar com máquinas. Gosto delas para escrever. E só. Ah, em tempo: o lobo ali de cima? É que duvido que alguém com um celular, uma super hiper mega sei lá o quê para fotografar, já tenha visto, cheirado,surpreendido, sentido algo assim. Poderá até fotografar.... mas contemplar e sentir o coração saltar, e descobrir um pouco de si mesmo... bom, é isso.

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