segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Para Drummond, de Rosane

“O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar.

O amor é grande e cabe na cama e no colchão de amar.

O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar”.

Carlos Drummond de Andrade
Minha homenagem ao poeta
Um abraço,
Rosane

Aniversário dele: nossa festa!!!


CANÇÃO AMIGA

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.


domingo, 30 de outubro de 2011

Drummond, Ziraldo, Minas e... eu (mineiramente envergonhada, e feliz da vida)


 “Mineiro não fala só na língua portuguesa de Minas Gerais, esse português murmurado em cantochão, com pronomes mal colocados, sílabas inteiras engolidas, os esses muito chiados – de mulher no cio -, aquela lentidão no meio da frase e a disparada brusca no seu final, como se já tivesse – o mineiro – ficado tempo demais em companhia da frase. Mineiro também fala, e principalmente em código. Há que entender o que ele quer dizer com um suspiro, com um olhar, com um amuo. (...)
“Tudo começou muito cedo, quando um professor da minha cidade leu, na sala, com escárnio, os versos da pedra no caminho e declarou que a poesia estava morta, que aquilo era um deboche e as musas iriam todas se suicidar. Pequenino no meio da turma, com um colega de olho muito vivo ao meu lado, nós nos olhamos e compreendemos tudo. Mesmo com a pedra no meio, ali é que estava o nosso caminho. O professor é que  estava morto,com seus velhos sonetos alabastrinos. Depois,a convivência natural com sua poesia já no curso científico, até o dia em que  Décio Escobar, poeta estadual, declamou no rádio o “E agora, José?”, depois de ter sido absolvido no mais rumoroso julgamento que a história dos crimes nos parques registrou em Minas. Na república de estudantes onde eu morava, Paulo Nogueira, meu poeta municipal, redescobria para nós dois a obra inteira de Drummond, e com ela passamos a conviver intensamente. Daí, eu ter usado todas as palavras de Hélio Pellegrino para definir – com a exatidão dos lúcidos – o que significou Drummond para a minha existência: ‘...eu não posso me compreender sem levar em conta a poesia de Drummond. Essa poesia é uma das chaves de mim mesmo’.

“Um dia eu pego O Globo e leio lá, no segundo caderno, que Drummond escrevera um livro infantil. A repórter perguntou a ele: ‘Quem é que vai ilustrar? ’ E ele respondeu, segundo O Globo: ‘Estou com vontade de pedir a Ziraldo. Não sei se ele vai aceitar’. A essa altura já não tenho mais dúvidas: as pessoas são diferentes pelo fato de terem nascido em lugares diferentes. São. E mais: as pessoas de um terminado lugar são mais parecidas com as pessoas do mesmo lugar do que as pessoas de outro lugar (!!!) é como esse negócio de horóscopo, por exemplo. Você começa a descobrir que quem é Escorpião,como você , parece mais com você do que quem é Virgem. Mistérios. Drummond era escorpião – do primeiro decanato – e mineiro, do chão de ferro. Nasci exatamente – exatamente! – trinta anos depois dele, e meu chão era o do vale do rio Doce,úmido, outra Minas Gerais. Mas Minas há muitas ou não há mais. Imagine você : ‘Não sei se ele vai aceitar...’”.
 Depoimento de Ziraldo, in O Dossiê Drummond, Geneton Moraes Neto, Editora Globo, RJ, 1994.

PATRIMÔNIO
Duas riquezas: Minas
E o vocábulo.

Ir de uma a outra, recolhendo
O fubá, o ferro, o substantivo, o som.

Numa, descansar de outra. Palavras
Assumem código mineral.
Minérios musicalizam-se em vogais.
Pastor sentir-se: reses encantadas.

(Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 29 de outubro de 2011

DIA NACIONAL DO LIVRO


 
 
No dia 29 de outubro de 1810 a Real Biblioteca Portuguesa foi transferida para o Brasil, sendo então criada a Biblioteca Nacional. O Brasil passou a editar livros a partir de 1808 quando D. João VI fundou a Imprensa Régia e o primeiro livro editado aqui foi "MARÍLIA DE DIRCEU", de Tomás Antônio Gonzaga. 

 (...)
 “Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
 que viva de guardar alheio gado,
 de tosco trato, de expressões grosseiro,
 dos frios gelos e dos sóis queimado.
 Tenho próprio casal e nele assisto;
 dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
 das brancas ovelhinhas tiro o leite
 e mais as finas lãs, de que me visto.
 Graças, Mar flua bela,
 graças à minha estrela!
 Eu vi o meu semblante numa fonte:
 dos anos inda não está cortado;
 Os pastores que habitam este monte
 respeitam o poder do meu cajado.
 Com tal destreza toco a sanfoninha,
 que inveja até me tem o próprio Alceste:
 ao som dela concerto a voz celeste,
 nem canto letra que não seja minha.
 graças, Marília bela,
  graças à minha estrela!”

(...)

Aqui um regato
corria, sereno,
por margens cobertas
de flores e feno;
à esquerda se erguia
um bosque fechado;
e o tempo apressado,
que nada respeita,
já tudo mudou.
São estes os sítios?
São estes; mas eu
o mesmo não sou.
Marília, tu chamas?
Espera, que eu vou.(...)

Drummond, a emoção.


 “ – o que é que emociona o senhor ainda hoje? O que é que mexe hoje com o coração do poeta Drummond?
Drummond: A beleza ainda me emociona muito – não só a beleza física, mas a beleza natural. Hoje, com quase oitenta e cinco anos, tenho uma visão da natureza muito mais rica do que eu tinha quando era jovem. Eu reparava mais em certas formas de beleza. Mas, hoje, a natureza, para  mim, é um repertório surpreendente de cosas magníficas e coisas belas. Contemplar o vôo do pássaro, contemplar uma pomba ou uma rolinha que pousa na minha janela... Fico estático vendo a maravilha que é aquele bichinho que voou para cima de mim, à procura de comida ou de nem sei o quê. Mas a inter-relação dos seres vivos e a integração do seres vivos no meio natural, para mim, são coisas que considero sublimes.”
 
In O Dossiê Drummond, Geneton Moraes Neto, Editora Globo, 1994, que contem a última entrevista concedida por Drummond (que odiava dar entrevistas, se autodenominou ‘urso polar’), em agosto de 1987, mês e ano de sua morte. Drummond havia chamado Geneton de ‘implacável’, por sua persistência em falar com ele. É um livro importante para a literatura brasileira.

“Amar um passarinho é uma coisa louca.
Gira livre na longa azul gaiola
Que o peito me constrange, enquanto a pouca
liberdade de amar logo se evola.

É amor meação? Pecúlio? Esmola?
Uma necessidade urgente e rouca
De no amor nos amarmos se desola
Em cada beijo que não sai da boca.

O passarinho baixa a nosso alcance,
E na queda submissa um vôo segue,
E prossegue sem asas, pura ausência,

Outro romance ocluso no romance
Por mais que amor transite ou que se negue,
É canto (não é ave) sua essência. (...)

(In Sonetos do Pássaro)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Para o Marcel, com gratidão, e rasgada admiração.



SR. BRASIL


Rolando Boldrin

Minha terra é uma grande pessoa.
Meu País é a criança pura, boa, inocente.
É também o sofrido adolescente,
Ou então, o jovem combativo e sonhador.
E agora, em tempo novo redivivo,
Eis que meu País se prepara em tom definitivo,
Para ser tratado de Sr.
SR. BRASIL

p.s: Explicito minha reverência ao Senhor Rolando Boldrin. Senhor Poeta. Senhor cidadão. E minha emocionada gratidão por revê-lo através do jovem poeta cidadão Marcel. Muito obrigada.

BASICAMENTE DRUMMOND



VIDA MENOR

A fuga do real,

ainda mais longe a fuga do feérico,

mais longe de tudo, a fuga de si mesmo,

a fuga da fuga, o exílio

sem água e palavra, a perda

voluntária de amor e memória,

o eco

já não correspondendo ao apelo, e este fundindo-se,

a mão tornando-se enorme e desaparecendo

desfigurada, todos os gestos afinal impossíveis

senão inúteis,

a desnecessidade do canto, a limpeza

da cor, nem braço a mover-se nem unha crescendo.

Não a morte, contudo.

Mas a vida: captada em sua forma irredutível,

já sem ornato ou comentário melódico,

vida a que aspiramos como paz no cansaço

(não a morte)

Vida mínima, essencial; um início; um sono;

Menos que terra, sem calor; sem ciência nem ironia;

o que se possa desejar de menos cruel: vida

em que o ar, não respirado, mas me envolva;

nenhum gasto de tecidos; ausência deles;

confusão entre manhã e tarde, já sem dor,

Porque o tempo não mais de se divide em seções; o tempo

elidido, domado.

Não o morto nem o eterno ou o divino,

Apenas o vivo, o pequenino, calado, indiferente

E solitário vivo.


Isso eu procuro.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

NOS TEMPOS DA BRUTALIDADE

 8.

Aos quatros anos de idade acompanhou a mãe, à noite, nas matas, para buscar o alimento. A mãe tinha medo. Aos seis anos segurou sozinha uma ave de rapina. Atravessou o campo e entregou a ave ao tio, tudo isso a mandado do pai. Aos nove anos acompanhou a tia na jornada mundo fora, para buscar um noivo. Voltando de viagem, fez o almoço dos irmãos, arrumou a casa e foi capinar a terra para o plantio do feijão. Dormiu cansada e acordou de madrugada para buscar o rebanho. Separou as vacas dos bezerros e começou a tirar o leite. Depois fez o queijo. Veio a tarde, hora de molhar a horta. As hortaliças estavam sedentas, eram muitas, mas antes do pôr do sol devia chegar à beira do rio e pegar os peixes para o jantar. Precisou correr. A grande habilidade que possuía facilitava tudo. Pegou os peixes, limpou os peixes, assou os peixes. Serviu o jantar. E não viu a lua.
A fome e o luxo que existem no mundo devem ser tratados à luz do Direito, disse Wolf.
Eu sempre disse que tudo isso é uma questão de se assumir o Romantismo como princípio, disse eu.
Nesta noite, vimos a lua.

Magda Maria Campos Pinto

Outubro Rosa. E inteligente:


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

NOS TEMPOS DA BRUTALIDADE


 7.

Vai chover. Enfim. Vai chover, que bom! Não havia mais ar; o calor, a poluição, a seca, as queimadas criminosas, o excesso de lixo, os restos...  Acabou o ar. E todo mundo adoece. Mas os hospitais não têm vagas. Muito menos, médicos. Nem pessoal, nem medicação. Há muita medicação nas farmácias, excesso de medicação. Sobra. Falta dinheiro, mas na disputa de mercado não é difícil encontrar um precinho melhor.
A chuva chegou. Tão bonita a chuva... Beleza interrompida. Vieram os ventos, as buzinas, os atropelamentos, os engarrafamentos. As árvores tombadas pela violência dos ventos aprisionados nos corredores de concreto entre os edifícios da grande cidade. Apagam-se as luzes. Fios cortados. E a chuva, que mal chegou, não encontra a terra, seu destino a fecundar. Entupidos os bueiros. Sem saída, a água sobe. Invade casas, corre pelos corredores asfaltados cheios de carros e de lixo. Não há espaço, se torna tormenta, é tragédia.
Grandes notícias: tragédias. SENSACIONAIS. Urgências. Mortes. Desabamentos. Lágrimas e lágrimas. A televisão gosta. Os patrocinadores também. Os desvalidos também, pois a esperança – última a morrer – move a expectativa de ‘alguém vai me reconhecer’ ou ‘alguém vai me ajudar’. Os construtores também gostam: ‘bons negócios à vista’.
Eu não gosto.
Eu gosto de chuva. Que molhava a mata. Que fecundava a terra. Que tamborilava no telhado.
- Wolf? Você está me ouvindo?
- Sim, pensando na Turquia, em Orhan Pamuk, e... se você inventasse o museu da memória? 

Magda Maria Campos Pinto