sexta-feira, 28 de outubro de 2011

BASICAMENTE DRUMMOND



VIDA MENOR

A fuga do real,

ainda mais longe a fuga do feérico,

mais longe de tudo, a fuga de si mesmo,

a fuga da fuga, o exílio

sem água e palavra, a perda

voluntária de amor e memória,

o eco

já não correspondendo ao apelo, e este fundindo-se,

a mão tornando-se enorme e desaparecendo

desfigurada, todos os gestos afinal impossíveis

senão inúteis,

a desnecessidade do canto, a limpeza

da cor, nem braço a mover-se nem unha crescendo.

Não a morte, contudo.

Mas a vida: captada em sua forma irredutível,

já sem ornato ou comentário melódico,

vida a que aspiramos como paz no cansaço

(não a morte)

Vida mínima, essencial; um início; um sono;

Menos que terra, sem calor; sem ciência nem ironia;

o que se possa desejar de menos cruel: vida

em que o ar, não respirado, mas me envolva;

nenhum gasto de tecidos; ausência deles;

confusão entre manhã e tarde, já sem dor,

Porque o tempo não mais de se divide em seções; o tempo

elidido, domado.

Não o morto nem o eterno ou o divino,

Apenas o vivo, o pequenino, calado, indiferente

E solitário vivo.


Isso eu procuro.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

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