segunda-feira, 24 de outubro de 2011

De escrita, tradução e verdade, também para o Marco:

 Em Torres de Babel, de Jacques Derrida:

“A palavra ‘verdade’ aparece mais de uma vez em “A tarefa do tradutor”. Não é necessário apressar-se em compreendê-la. Não se trata da verdade de uma tradução enquanto conforme ou fiel a seu modelo, o original. Nem mais, do lado do original ou mesmo da tradução, de alguma adequação da língua ao sentido ou à realidade, até mesmo da representação de alguma coisa. Então do que ele trata sob o nome de verdade? É o novo a esse ponto?
Retomemos do ‘simbólico’. Lembremos a metáfora ou a ametáfora: uma tradução esposa o original quando os dois fragmentos ajuntados, tão diferentes quanto possível, se completam para formar uma língua maior, no curso de uma sobrevida que modifica todos os dois. Pois a língua materna do tradutor, nós constatamos, altera-se aí igualmente. Pelo menos, tal é a minha interpretação – minha tradução, minha ‘tarefa do tradutor’. É o que chamei o contrato de tradução: himeneu ou contrato de casamento com promessa de inventar um filho cuja semente dará lugar à história e ao crescimento. Contrato de casamento como seminário. Benjamin o diz, na tradução o original cresce, ele acredita principalmente que ele não se reproduz – e eu acrescentarei, como um filho, o dele sem dúvida, mas com a força de falar sozinho que faz de um filho algo mais que um produto sujeitado à lei da reprodução. Essa promessa faz sinal em direção a um reino ao mesmo tempo ‘prometido e proibido onde as línguas se reconciliarão e se realizarão’. É a nota mais babélica de uma análise da escritura sagrada como modelo e limite de toda escritura, em todo caso de toda Dichtung no seu ser-a-traduzir. O sagrado e o ser-a-traduzir não se deixam pensar um sem o outro. Eles se produzem um e outro na borda do mesmo limite.
Esse reino não é jamais atingido, tocado, pisado pela tradução. Existe o intocável e nesse sentido a reconciliação é somente prometida. Mas uma promessa não é nada, ela não é marcada somente pelo que lhe falta para se realizar. Enquanto promessa, a tradução já é um acontecimento, e a assinatura decisiva de um contrato. Que ele seja ou não honrado não impede o engajamento de acontecer e de legar seu arquivo. Uma tradução que chega a prometer a reconciliação, a falar dela, a desejá-la ou fazer desejar, uma tal produção é um acontecimento raro e considerável.”


in Torres de Babel, Jacques Derrida, Editora UFMG,  2006.

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