quinta-feira, 20 de outubro de 2011

DRUMMOND. E exclamação!



NASCER DE NOVO
Nascer: findou o sono das entranhas.
Surge o concreto,
A dor de formas repartidas.
Tão doce era viver
Sem alma, no regaço
Do cofre maternal, sóbrio e cálido.
Agora,
Na revelação frontal do dia,
A consciência do limite,
O nervo exposto dos problemas.

Sondamos, inquirimos
Sem resposta:
Nada se ajusta, deste lado,
À placidez do outro?
É tudo guerra, dúvida
No exílio?
O incerto e suas lajes
Criptográficas?
Viver é torturar-se, consumir-se
À míngua de qualquer razão de vida?

Eis um segundo nascimento,
Não adivinhado, sem anúncio,
Resgata o sofrimento do primeiro,
E o tempo se redoura.
Amor, este o seu nome.
Amor, a descoberta
De sentido no absurdo de existir.

In A paixão medida, Carlos Drummond de Andrade, José Olympio Editora, RJ, 1980.
(Eros e Psiqué, Museu do Louvre)

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