quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Drummond e saudade

CARTA 
Carlos Drummond de Andrade


 Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
Estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
São golpes, são espinhos, são lembranças
Da vida a teu menino, que ao sol-posto
Perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
À hora de dormir, quando dizias
‘Deus te abençoe’, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
A noite acumulada de meus dias,
E sinto que estou vivo, e que não sonho.


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