sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Drummond e verdade


 CONFISSÃO
  
Carlos Drummond de Andrade

Não amei bastante meu semelhante,
Não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
Melodiosas, tarde, ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre) e na meia-luz
Tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
E tudo que ele implica de suave,
De concordâncias vegetais, murmúrios
De riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,
Contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido –
Que se esfacelou na asa do avião.



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