sábado, 29 de outubro de 2011

Drummond, a emoção.


 “ – o que é que emociona o senhor ainda hoje? O que é que mexe hoje com o coração do poeta Drummond?
Drummond: A beleza ainda me emociona muito – não só a beleza física, mas a beleza natural. Hoje, com quase oitenta e cinco anos, tenho uma visão da natureza muito mais rica do que eu tinha quando era jovem. Eu reparava mais em certas formas de beleza. Mas, hoje, a natureza, para  mim, é um repertório surpreendente de cosas magníficas e coisas belas. Contemplar o vôo do pássaro, contemplar uma pomba ou uma rolinha que pousa na minha janela... Fico estático vendo a maravilha que é aquele bichinho que voou para cima de mim, à procura de comida ou de nem sei o quê. Mas a inter-relação dos seres vivos e a integração do seres vivos no meio natural, para mim, são coisas que considero sublimes.”
 
In O Dossiê Drummond, Geneton Moraes Neto, Editora Globo, 1994, que contem a última entrevista concedida por Drummond (que odiava dar entrevistas, se autodenominou ‘urso polar’), em agosto de 1987, mês e ano de sua morte. Drummond havia chamado Geneton de ‘implacável’, por sua persistência em falar com ele. É um livro importante para a literatura brasileira.

“Amar um passarinho é uma coisa louca.
Gira livre na longa azul gaiola
Que o peito me constrange, enquanto a pouca
liberdade de amar logo se evola.

É amor meação? Pecúlio? Esmola?
Uma necessidade urgente e rouca
De no amor nos amarmos se desola
Em cada beijo que não sai da boca.

O passarinho baixa a nosso alcance,
E na queda submissa um vôo segue,
E prossegue sem asas, pura ausência,

Outro romance ocluso no romance
Por mais que amor transite ou que se negue,
É canto (não é ave) sua essência. (...)

(In Sonetos do Pássaro)

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