domingo, 30 de outubro de 2011

Drummond, Ziraldo, Minas e... eu (mineiramente envergonhada, e feliz da vida)


 “Mineiro não fala só na língua portuguesa de Minas Gerais, esse português murmurado em cantochão, com pronomes mal colocados, sílabas inteiras engolidas, os esses muito chiados – de mulher no cio -, aquela lentidão no meio da frase e a disparada brusca no seu final, como se já tivesse – o mineiro – ficado tempo demais em companhia da frase. Mineiro também fala, e principalmente em código. Há que entender o que ele quer dizer com um suspiro, com um olhar, com um amuo. (...)
“Tudo começou muito cedo, quando um professor da minha cidade leu, na sala, com escárnio, os versos da pedra no caminho e declarou que a poesia estava morta, que aquilo era um deboche e as musas iriam todas se suicidar. Pequenino no meio da turma, com um colega de olho muito vivo ao meu lado, nós nos olhamos e compreendemos tudo. Mesmo com a pedra no meio, ali é que estava o nosso caminho. O professor é que  estava morto,com seus velhos sonetos alabastrinos. Depois,a convivência natural com sua poesia já no curso científico, até o dia em que  Décio Escobar, poeta estadual, declamou no rádio o “E agora, José?”, depois de ter sido absolvido no mais rumoroso julgamento que a história dos crimes nos parques registrou em Minas. Na república de estudantes onde eu morava, Paulo Nogueira, meu poeta municipal, redescobria para nós dois a obra inteira de Drummond, e com ela passamos a conviver intensamente. Daí, eu ter usado todas as palavras de Hélio Pellegrino para definir – com a exatidão dos lúcidos – o que significou Drummond para a minha existência: ‘...eu não posso me compreender sem levar em conta a poesia de Drummond. Essa poesia é uma das chaves de mim mesmo’.

“Um dia eu pego O Globo e leio lá, no segundo caderno, que Drummond escrevera um livro infantil. A repórter perguntou a ele: ‘Quem é que vai ilustrar? ’ E ele respondeu, segundo O Globo: ‘Estou com vontade de pedir a Ziraldo. Não sei se ele vai aceitar’. A essa altura já não tenho mais dúvidas: as pessoas são diferentes pelo fato de terem nascido em lugares diferentes. São. E mais: as pessoas de um terminado lugar são mais parecidas com as pessoas do mesmo lugar do que as pessoas de outro lugar (!!!) é como esse negócio de horóscopo, por exemplo. Você começa a descobrir que quem é Escorpião,como você , parece mais com você do que quem é Virgem. Mistérios. Drummond era escorpião – do primeiro decanato – e mineiro, do chão de ferro. Nasci exatamente – exatamente! – trinta anos depois dele, e meu chão era o do vale do rio Doce,úmido, outra Minas Gerais. Mas Minas há muitas ou não há mais. Imagine você : ‘Não sei se ele vai aceitar...’”.
 Depoimento de Ziraldo, in O Dossiê Drummond, Geneton Moraes Neto, Editora Globo, RJ, 1994.

PATRIMÔNIO
Duas riquezas: Minas
E o vocábulo.

Ir de uma a outra, recolhendo
O fubá, o ferro, o substantivo, o som.

Numa, descansar de outra. Palavras
Assumem código mineral.
Minérios musicalizam-se em vogais.
Pastor sentir-se: reses encantadas.

(Carlos Drummond de Andrade)

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