sábado, 1 de outubro de 2011

FRAGMENTOS DE UM SOLO

4.

Eu queria escrever para você. Para mim, como você pode ver escrever para alguém é dar-lhe um presente pessoal, é, na verdade, dar-me. Abrir minhas gavetas. É coisa à qual me atrevo. Meu risco, ou seja, um gesto de amor, ao qual não consigo e não quero resistir. Agora, quero todos os riscos. Eu queria escrever para você que, mais que  simplesmente você, continua sendo a saída. Do tédio, da dor e de mim. Assim solene: tu és. E parece que assim será pra sempre. Mas te vejo tenso, queixo marcado mesmo através da barba que, não sendo espessa, é bonita. Sinto sua humanidade radical. Não encontro seus olhos. Algumas vezes te imagino triste, mas logo percebo que, para mim, és enigmático, ou seja, um humano. Não o decifrei. Nem quero. E desejo que tu não o permitas, porque só assim, continuarás sendo a porta. Peço-te ajuda, impotente num sentido, e noutro, apaixonada. Pra junto de ti eu sempre fugi e agora, simplesmente, eu quero ir. Eu te amo do modo fundamental – comigo foi e será sempre assim. Eu te amei antes. Quando eu o soube, eu te amava. Amo de amor com qualidade muito própria: lancei-me. Saí atrás de uma sombra, mas saí. Escolhi os caminhos de Quixote, mas escolhi. Engraçado, eu posso te contar sobre teus pés. São lindos. Acho tão bom. São bonitos os teus pés. Não te vejo nu, ainda. Quando te imagino nu, ainda não sou capaz de te ver. Entretanto, te enxergo perfeitamente sob tua roupa. Teu corpo longo se estende em músculos bem desenhados e firmes. Estende-se o teu corpo ao longo do meu olhar que te adora. A tua pele queimada pelo sol, mesmo assim é brilhante. E se move mansamente em teu respirar discreto. Embora discreto, eu o sinto como o movimento da onda em que me naufragarei e gosto. Sinto-me melhor porque comecei a escrever para você. Sinto-me como quem morreu bem.

Abri os olhos às vinte horas, pensando em vestir saia justa de seda azul marinho. E minha blusa de tricô em linha vermelha. E querendo usar meias, e sapatos de saltos.

Magda Maria Campos Pinto
 

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