domingo, 2 de outubro de 2011

FRAGMENTOS DE UM SOLO

5.

Desci do avião e estremeci quando revi aquela estranha e linda cidade. E pensei que jamais me renderia ao mar. Eu não o esperava mas ele estava lá, tranquilo, encostado numa parede vigiando aviões. Beijou-me a testa e pegou minha sacola. Eu estava surpresa com a presença dele no aeroporto – ele detesta aeroportos – mas sem explicar-me nada, começou a caminhar e só depois de assentado ao volante disse que esperava que eu gostasse do apartamento. Deu-me um abraço inteiro afagando-me levemente os cabelos e apertando minha cabeça contra o peito. Segurou-me assim por bastante tempo e depois disse, assustando-me novamente, que eu não tivesse tanto medo e ficasse desde já com ele, que eu não fosse mais embora, que afinal eu já sabia muito bem que tinha ficar perto dele pois do contrário eu não sobreviveria,e que a história de recaídas a gente já sabia como é que era, que eu tinha de ficar, ora bolas,que coisa mais antiga, afinal eu tinha mais que idade suficiente para viver o dia marcado no calendário... Tudo num único fôlego. Não ouvi mais. Perdi a palavra e ele percebeu o sem jeito que eu sou quando perco a palavra. Beijou-me com lábios quentes. Rindo de mim, continuou a beijar sugando, com calma, minha boca e depois meu pescoço, ombros e seios. Continuou abusando da minha falta de voz e sussurrou ‘calaaaada!’ mas eu chorei solto e não me importei com as lagrimas que me desnudavam, nem tampouco com o riso abusado dele enquanto as apanhava com a boca. E quase pensei ‘não, não’ mas não havia nenhuma palavra disponível para meu pensamento. Quando a minha palavra voltou, voltou apenas ‘droga’ querendo isso dizer que eu não queria chorar, e ele, entendendo bem, sussurrou novamente ‘coisa muito própria de mulher, não se assuste’ enquanto aquela mão continuava passeando em mim. Voltou a me beijar com força e eu me agarrei em seu corpo, que eu já sabia quente. Afastei-me um pouco e esperei olhando pra ele. Pedi licença e levei as mãos pra tirar-lhe os óculos, coisa que fazia sempre que sentia medo, ele disse ‘tá bom’ e ficou quieto. Então revi os brilhantes olhos castanho-claros e límpidos. Eu sorri e estava chorando ainda e ele disse ‘mentirosa’, e eu repeti ‘mentirosa’, e sorrimos juntos, muito agarrados, e ele disse que estava achando o carro muito apertado.

A cama do apartamento era simples, de madeira escura, mas brilhante. Sem enfeites, ela surgia majestosa com a cabeceira em três curvas suaves. A roupa de cama era impressionantemente branca e o apartamento inteiro lembrava uma casa quase vazia, limpa e com um jeito antigo. Eu pude adivinhar que ele o havia escolhido exatamente por isso. Parecia a minha casa. Parecia eu. Quando voltei a lhe tirar os óculos e os sapatos,ele começou a rir e eu lhe disse que ele ria demais.

Magda Maria Campos Pinto
 

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