segunda-feira, 3 de outubro de 2011

FRAGMENTOS DE UM SOLO

 6.

- E daí?
- Daí nada. Apenas ocupei-me com elas e me esqueci da Internet. O amaranto mais comum, digamos assim, é uma pequena planta de flores vermelhas, comuns em nossos jardins, é chamada de rabo de raposa, e tem origem oriental. Tenho maior interesse pelo amaranto que existe no interior de Minas, chamado macelão. Um tipo gigante de macela. Esse nome , macela, vem de maçã. Engraçado, não? Assim como a camomila, nome que também vem do grego, embora mais moderno, e que significa macieira rasteira. É do mesmo grupo, uma amarantácea. Eu queria descobrir como a maçã entrou nessa história, mas não consegui nem imaginar, nem descobrir. Aprendi que são plantas medicinais, usadas normalmente como tranqüilizantes ou como digestivos. E também para encher deliciosos travesseiros, regaços para cabeça. Para os antigos, eram símbolo de imortalidade, significado que parece ter sido identfiicado em culturas diferentes. Ouça alguns de seus nomes: Sempre-viva, Perpétua-do-mato... Foi uma flor de amaranto, de uma espécie que ainda não consegui identificar, que me deu a primeira e definitiva estocada. Uau! Que palavra...
Aqui ele já estava gargalhando, e dizendo que eu não deixava Freud descansar em paz pediu que eu continuasse meu delírio. Não me fiz de rogada, o vinho já fazia seu bem-vindo efeito e me soltei.
- Pois é, a tal florzinha de amaranto me castrou, e exibiu toda minha impotência. Enfim, foi nesse momento que minha história começou, de uma maneira mais consistente, digamos. É. Outra vez a mesma palavra, consistente. Já padeci piadas por gostar dessa palavra. Fazer o quê? Gosto. Bom, daí, aprendi o que é o narcisismo, pois comecei a me interessar por ele.
- Você é louca.
- É o que estou tentando lhe dizer já faz um bom tempo, e com grande dedicação.
- É verdade. Estou resistindo, mas vou conseguir aceitar, prometo.
- Por que não? Não fuja. Se entregue ao escândalo da dor. A loucura pode nos salvar. Pode ser até mesmo uma alegria suave, o que não significa ausência de angústia, é claro. E tampouco será desatino, violência ou indiferença, pois tudo isso é antes horror da loucura. Mas... andando pelos campos do sertão, de repente, você pode encontrar uma porção de buquezinhos pálidos ou coloridos, delicados como fiapos de algodão, majestosamente arranjados na ponta de um talo comprido, espigado, como quem se esforça para alcançar o céu.
Ele me olhava estarrecido e eu disse que gostava daquela cara de bobo, perguntando se ele queria saber mais do amaranto ou do golpe que o amaranto me deu. Então ele respondeu ‘dos dois para que possa ter mais chance de compreender...’ mas antes que ele terminasse a frase eu disse:
- Eu queria escrever um romance com o nome Solo de Amaranto. Mas não consegui.


Magda Maria Campos Pinto


2 comentários:

  1. ♪"...se a Perpétua cheirasse..."♪

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  2. *...seria a rainha das flores... mas como a perpétua...*, seria muito legal se você escrevesse a sua história com a perpétua, né??

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