quarta-feira, 5 de outubro de 2011

FRAGMENTOS DE UM SOLO

 
7.


- Então eu vou te contar. Eu soube que o amaranto foi um dos alimentos mais populares na América pré-colombiana; maias, incas e astecas o consumiam em grande escala, e esses alimentos eram associados a rituais religiosos, e também em rituais de cura. Por isso, foram proibidos pelos colonizadores, entende? Pelos esclarecidos.
- Estou descobrindo sua veia debochada.
- Tenho bastante humor, e pouca modéstia.

Ele ria de maneira relaxada, eu estava leve, e isso me parecia o paraíso.

- Escute, as amarantáceas têm propriedades valiosas... contêm elementos terapêuticos das mais diferentes qualidades. Você nem imagina! Sabia que em 1979 a Academia Nacional de Ciências dos EUA declarou o amaranto como o melhor alimento de origem vegetal para o consumo humano, pelo fato de não pedir nenhuma elaboração e agir nos diversos sistemas do nosso organismo? Pois é, e daí, eu comecei a delirar com o tal amaranto, e até andei imaginando que somos parentes bem próximos. Sim, não precisa repetir, eu sou louca.
- Somos parentes? Quem?
- Os humanos e o amaranto, ora...
- Sim, já sei, e a estocada?
- Então, os buquês estão todos ali, frágeis, lindos, brilhantes ao sol, e ao seu alcance, ao alcance de nossa mão bruta. Se uma brisa soprar, você pode sentir um perfume suave e açucarado, mas depende da espécie (do buquê, é claro, não da brisa... ou, quem sabe?) Uma tarde, eu estava fascinada diante de um buquezinho e não resisti, tentei arrancá-lo pra mim mas o caule resistiu. Ele é forte. Ao primeiro puxão a flor se desfez e cada fiapo se soltou no ar, foi embora. Acabou. Fiquei eu e minha brutalidade, isto é, ficou nada. É a fragilidade bem enraizada que a mantém livre... Ah, você já leu o 'Fragilidade', do Jean-Claude Carrière? É muito...
- Evitaremos as digressões, pode ser?

Sorri meio sem graça, mas concordei com ele, e naquele instante descobri que eu poderia amá-lo.

- Enfim, é a lição do amaranto... Você não poderá guardar um buquê desses pra você. Por que será que os antigos consideravam essas plantas um símbolo da imortalidade? Elas se desmancham...
- Mas não se deixam apanhar. Por que a morte te atrai assim?
- Não a morte, mas a vida. A morte é mera porção da vida. O escândalo é corromper a vida, o escândalo é matar, e o natural é morrer.
- Vou pensar nisso até...
- Ah! Tive uma idéia... Elas, as amarantáceas são imarcescíveis!
- Imar...?
- Isso!, não murcham... Talvez por isso estiveram ligadas à imortalidade. Talvez... viver sem murchar... a imortalidade!
- Estou pensando em te amar.

Magda Maria Campos Pinto.

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