quinta-feira, 6 de outubro de 2011

FRAGMENTOS DE UM SOLO


 
 8.

Quero conversar com a calça jeans. Tento, só murmuro e ouço: ‘cala’ e penso ‘existem duas vozes’, mas me calo, obedeço. Temo outro som abafado, e me aquieto. Lembro-me de Wolf que tem o corpo quente, então começo a chorar pela primeira vez desde... Desde quando? Choro lágrimas que ao escorrerem cortam o bronze que me constituiu abrindo-me profundas brechas. Elas ardem. Eu choro pela primeira vez desde que vi um carro parado na esquina da minha casa e era um carro vermelho, bonito e novo. A polícia vai saber... Penso... A polícia? Sim, a polícia, e descubro: meu corpo de bronze! Sei que estou um pouco confusa. Um pouco? Sei que apanhei muito. Fico vendo os claros olhos castanhos de Wolf e me alimento dessa clareza, e agora penso que nada contém uma vida, que é uma dor, e a mulher macérrima me estende uma maçã que eu não quero, e ainda penso ‘nunca gostei de maçã’ e revejo meu bom humor, e sinto o sabor do Wolf, vinho tinto seco, sentindo também a vontade absoluta de me calar para sempre. Ridícula, eu penso, e penso também ‘você foi calada! Silenciada! Amordaçada!’. Fui? Eu não sinto medo, continuo pensando, é melhor não ficar repetindo isso, mas de fato eu não sinto nada que não seja uma dor absurda, que não está no compacto de bronze que descobri existir no começo do corpo que é o meu, do corpo que eu sou. Enfim, localizou-se a minha dor! Continuo pensando, calada. Minha dor está no mundo, fora do bronze. Sempre esteve. Mas é questão de perspectiva, o mundo. Entre as ondas da dor há uma comédia delicada, elegante, atores etéreos, fadas, duendes, faunos, gestos, risos. Eu assisto. Fastio. E de repente penso que tudo vai voltar ao normal... Normal? Quando alguém se lembrar de que se esqueceu de olhar o relógio. Mas nessa hora todo mundo vai correr porque estará atrasado e eu ficarei sozinha de novo, então, desisto, e não quero que tudo volte ao normal, se eu pudesse quebrava todos os relógios. Bastava isso e sobraria o tempo. O tempo ficaria livre da gente, os humanos, então, ele iria correr livre e sua alforria nos seria paga, a nós humanos, com a beleza perpétua. Eu sei: se alforriássemos o tempo, ele nos pagaria com a beleza eterna, ohhh!, direi ao Wolf que o fundo, ou melhor, no fundo, habita a pura estética. Nem morte, nem loucura, pura estética! Ele vai rir, repetir que eu sou louca, mas ficará pensativo. Humm, o bronze relaxou um pouco, retomo braços e pernas de que eu gosto muito, e costas, ora ora, sempre tão doídas. Retomo seios de descobertas difíceis dessa feminina existência. Será? Será que o bronze se derreteu? Acabou? A dor venceu o bronze. Não, não estou convencida. Mas acabo de descobrir que prefiro a dor ao bronze. Acabo de saber quanto perdi enquanto fui bronze. Sim, sim, aquela liga metálica absurdamente antiga, resistente, preferida para armas e para esculturas... Sim, isso mesmo! Eu! Resistente inclusive à corrosão. Mas acho que isso se derreteu. Por incrível que pareça... Acho, mas não vou alardear, fico quieta, sou prisioneira, não posso me esquecer disso, vão me espancar novamente se eu falar... Eu penso: por que acreditam que vão pagar por mim? Não sabem que já tratei desse assunto com Wolf? Que entendemos que jamais negociaríamos vida? Será que Wolf vai cumprir nosso acordo? Parece que vou adormecer...

Magda Maria Campos Pinto

 

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