sexta-feira, 7 de outubro de 2011

FRAGMENTOS DE UM SOLO

 
 9.
 Aos poucos, como fiapo de algodão voando numa brisa adocicada a minha vontade brilha pontilhada dentro da flecha de sol que entra pelo pequeno furo naquela janela fechada, risca a penumbra deste lugar, e vendo minha vontade assim brilhante, me digo: “you must remember this, a kiss is still a kiss, laiálaiáliálaiá, as time goes bye” e então, são os risos da vida inteira que vejo pululando ao meu redor, ‘a case of do or die’. Eu estou feliz porque finalmente enlouqueço calmamente, sem pudor. Pena que meu corpo era tão duro, tão bronze, e quebrá-lo parecia impossível. Parecia... Mas minhas lágrimas de fogo pela falta de Wolf romperam-no. Se eu o soubera antes, se eu soubesse que... Talvez eu saia dessa, talvez. Então, sairei sem o bronze. Quero rir, mas não devo, alguma coisa me diz que não é conveniente rir num momento deste, afinal, nem todo mundo é louco, e por isso, alguns são violentos. Continuo brincando com os cabelos do Wolf e temos uma conversa sobre a estupidez das penas de morte. Acho que vou adormecer novamente.

Devo ter sido traída por um sonho porque de repente me ouço gritando ‘quero falar’, e ainda penso ‘ahhh inconsciente insistência’ e sinto o mesmo som abafado de metal chocando-se contra o meu crânio, e tudo desaparece outra vez num tremor de dor.

Volto e não há nem cerebrozinhos nem risos pululando ao meu redor, vejo apenas o tal bronze, de novo, e agora não é corpo, mas um amontoado sem forma aparente. Penso: bronze é a mais antiga liga metálica conhecida pelo homem, resiste à corrosão, ora, ora como é insistente o inconsciente, repete e repito tão resistente! Será bronze? E assim se fez meu corpo? Meu eu? Ou melhor, o amontoado de bronze, credo! Ele pensa ainda, isso ainda pensa, que alegria estranha de vencedor abatido, mas neste momento meu pensamento mistura Jesus e Hegel e, eu penso que sou a mais teimosa das criaturas e que minha loucura continua me deixando muito só e então, a ausência do louco do Wolf é um punhal fininho que faz gotejar meu sangue que colore essa penumbra. Aqui, avermelhado, um cabaré, essa vida.

Entretanto, agora o Wolf me diz que sobreviverei, pois afinal ele está tão morto quanto eu e, portanto... Estamos os dois sobre o mesmo rochedo e aqui ele sorri safado e me lembra que temos ainda uns problemas a tratar, e me pede para não desistir, afinal a Clarice... quem? Oh, esqueceu? Ele diz. Eu me esforço e me lembro, ah, sim, a Lispector, linda, é verdade, e penso respondendo a ele que o que eu estou fazendo é muito sério e que se as pessoas me entenderem – isto é, que a loucura é a razão da minha sobrevivência – muitas coisas ficariam melhores e que ele, o Wolf, iria ficar mais feliz descobrindo outro tempo, o tempo da delicadeza, e quase canto me lembrando da voz perfeita do Chico Buarque que canta o amor da gente. Delicado é o Wolf que me diz: morrer bem é viver por causa de. Você disse não à violência. O Wolf é lindo. Eu me sinto bem e volto a buscar a meditação que agora me traz rapidamente os filhos que eu não tive, e então eu dou de chorar, mas dessa vez sem lágrimas e aparecem cenas dos filmes que eu amo, com os livros que eu amo, e eles me sorriem, sapecas, anjos, eles dizem... ‘Diadorim é a minha neblina’, me pergunto como podem saber disso. Recupero-me como quem cai, e me lembro do amor que nos venceu, e me lembro também como quem se lembra de que está com sede que eu quero morrer. E isso, eu não posso contar para o Wolf.

Magda Maria Campos Pinto 

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