sábado, 8 de outubro de 2011

FRAGMENTOS DE UM SOLO



10.

Ele bate a arma na minha cabeça e deixo definitivamente de enxergar, mas dessa vez não perco a consciência, o mundo ficou negro, só isso, negríssimo, entretanto pontilhado de brilhos como estrelinhas mínimas, eu me lembro, como o céu de Diamantina em noite sem lua, sim, eu me lembro, e ainda penso, sim, eu sou insuportável, não me rendo, e tudo rodando, rodando... Até que dentro de mim começa um terremoto, minhas entranhas se rebelam, querem sair, e vomito. Existe algo que corrói bronze, penso. E agora entre os pontinhos brilhantes de um mundo negro revejo o amor de Wolf e me debruço sobre ele. O homem desprezível continua chutando esse traste a que chamam cama, e esses trancos me fazem vomitar mais, e eu, eu, a intratável, penso: que descontrolado! E ouço um berro: ‘quem tem medo aqui é você’. Oh! Quero rir, claro que tenho medo, horror, terror, mas não digo nada, quero rir, pensando que ele tem mais medo que eu. O descontrolado desatinou e volta a me espancar e, então, uma calda amarga começa a me afogar. Logo tudo fica apertado, muito apertado, como se estivessem me dobrando. O amontoado de bronze se torna uma lâmina de bronze, eu penso, e penso: talvez eu vá para a reciclagem. Ah, não, não, você não é mais bronze, diz Wolf aqui bem perto de mim, sorrindo aquele riso que diz que me ama, mas o desumano idiota chutante berrante mantém sua violência e seu espancamento, decididamente me assassinando, e eu, eu agora sou apenas uma enorme falta de espaço, sou apenas aperto, mas ainda penso: ‘é preciso morrer sem concessão para a violência, uhhh!, que coisa meu fim é mesmo um pensamento’.

Parei de respirar. Mas estou consciente e não há dor. Não há nenhuma tensão e pareço uma... Não sei. Mas é uma. As palavras estão escorrendo. Escorrendo? É. Eu as vejo. Engraçado, eu me lembro, Freud também as viu. Ainda há um rio. Rio? É. Talvez mar. Tem águas mornas. As palavras caem no rio, as palavras são amarelas, cor de folhas secas no outono, molhadas pelo sereno mentiroso da madrugada. Eis a minha vida, eu sei o que é sereno mentiroso da madrugada, já disse isso. É um movimento silente. Entretanto essa minha apatia é aparente. Eu rimo. As palavras vão embora, mas ainda penso com as que restam. Não é o tempo mas o esforço que se vai quando se morre, vai embora do mundo, ou melhor, vai embora da gente, mas não há mais gente, esta palavra foi embora agora mesmo, ainda há mundo, me confundo, definitivamente rimando. Há mundo, e eu não acho graça. Nem há rio. Agora parece ar puro, e uma cor violeta no espaço. E há, no mundo, luz. Sem chamas, mas permanente. Parece jorro d’água, mansa e perene. Mas é luz. E é quente. E é violeta. Parece o amor que eu sinto. É o luar quente da minha aldeia, e é também o olhar generoso do Wolf.

Magda Maria Campos Pinto

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