quinta-feira, 13 de outubro de 2011

NADINE GORDIMER: para conhecer

Nadine Gordimer que nasceu em Johannesburg em 1923, é uma escritora profícua de romances, crônicas, ensaios e peças. Todo seu trabalho é marcado pelo tema do apartheid, com a sensibilidade e a profundidade de uma personalidade verdadeiramente forte e ousada. Assim, não é leitura fácil, não se trata de digerir uma sobremesa, mas de degustar um belíssimo e elaborado prato composto de surpreendentes e desconhecidos ingredientes. Ela caminha pelos diversos estratos de uma sociedade complexa, rica, violenta e única, e penetra na alma dos múltiplos sujeitos dessa sociedade. É o que estou sentindo descobrindo Nadine Gordimer. Escritora agraciada com os maiores prêmios da literatura mundial, recebeu o Nobel em 1991. Filha de um imigrante judeu vindo da Letônia e de mãe britânica superprotetora, dedicou-se à escrita desde a infância. Publicou o primeiro livro de contos aos 26 anos e não parou mais.

  
“Ele perambula pelos aposentos da casa como que catalogando preguiçosamente objetos reconhecidos e coisas adquiridas, acrescentadas, sem nenhuma lembrança associada, representando períodos e desejos de duas pessoas depois que ele saiu dessa casa, à qual retornou como emanação. As coisas inanimadas não se apercebem de um ectoplasma, apenas seres vivos têm consciência dessa presença. O labrador tirando uma soneca furtiva num sofá ergue a cabeça diante de alguém ali, no aposento.
Através das janelas baixas da sala, pernas lançadas sobre o peitoril, vai para no jardim.
Apenas no que devem ser determinados dias regularmente espaçados o homem com a grande forquilha ou pá ou podadeira está ali: a saudação. Tornou-se um aceno com uma ferramenta agitada no ar. Ele tentou responder, abrindo-se ao diálogo, mas as poucas frases compostas em zulu ficam sem resposta, à exceção de um sorriso que poderia ser ou não de incompreensão, talvez a construção gramatical seja ridícula ou o homem fale outra língua. Sua própria voz é respondida por um guincho estridente de ave. Os íbis vêm do alto do telhado e estendem seus bicos telescópicos em busca de minhocas no gramado, como se ele nem estivesse ali.
Aos sete, oito anos (deve ter sido quando bem pequeno), com um estilingue feito de um galho de jacarandá e umas tiras de borracha de um pneu de bicicleta velho, mira nas pombas que até hoje entoam seu recitativo sobre as calhas. A brincadeira é proibida, e da única vez em que uma ave é atingida e cai, claudicante, mas com vida nos olhos cintilantes, entende por quê: a morte é proibida. O que aconteceu com o pássaro? Escondido numa lata de lixo. Não, a transgressão tem mais imaginação do que os legisladores podiam imaginar. Ela foi enterrada atrás da velha pilha de adubo, um companheiro de brincadeiras sendo trazido para a cerimônia fúnebre, os caules de algumas margaridas espetados eretos no solo.” 

in De volta à vida, Nadine Gordimer, Companhia das Letras, 2007

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