quinta-feira, 13 de outubro de 2011

NOS TEMPOS DA BRUTALIDADE

1.

Quando nossos olhares se encontraram novamente e não os desviamos e nos mantivemos ligados por aquele fio que parecia nos manter suspensos sobre os abismos inescrutáveis do universo... Aquele fio que nos ligava definitivamente e do qual dependíamos desesperadamente... Aquele fio que não podia se romper sob pena de nos perdermos irreversivelmente, não nos abismos que não mais nos assustavam, mas de nós mesmos, nós que sobrevivemos a todos os absurdos inescrutáveis do século e que agora não desviávamos nosso olhar... Aquele fio magnetizado levando e trazendo todo o sentimento esperança ódio rancor pena dor compaixão tristeza amor medo amor remorso amor ciúme amor... Aquele fio de meus olhos negros de luz intensa como ele dissera de meus olhos um dia aos olhos claros de luz verde/azul como eu dissera dos olhos dele um dia... Aquele fio dos olhos dele claros de luz verde/azul como eu dissera dos olhos dele um dia aos meus olhos de luz negros de luz intensa como ele dissera de meus olhos um dia se tornou a armadilha definitiva que me fez decidir contar a ele toda a minha verdade, e fez com que ele decidisse ouvir toda a minha verdade, fosse a verdade o quê fosse.
Houve aquele homem feio e hiperativo que não quis me amar porque eu gostava de ter comigo, sob o travesseiro, o terço de contas de pedras brancas, leitosas, que roubara de meu pai quando saí de casa. Meu pai, um homem rígido e religioso, gostava de seu terço de contas de pedras brancas. Na verdade se orgulhava dele como se fosse dono de uma obra de arte exclusiva, única, absoluta. Eu o roubei, ele sabia, e sábio que sempre fora, fez como quem não soubesse que eu o roubara, fez como se o tivesse perdido, e aprovando assim minha primeira ousadia, concedeu-me tamanha autoconfiança e poder que desde o meu princípio eu já decidira entregar-me ao amor, sem medo de abismos. Assim entreguei-me a ele, aquele homem feio, metido a intelectual, a cientista e a besta, pois que ele, cientista e intelectual, sentia-se superior, superior e superior. Eu, embora ainda uma criança, embora em estado crepuscular causado pela incalculável quantidade das luzes da cidade grande, naquele tempo, naquele tempo de igualmente incalculável quantidade de idéias que todos achavam brilhantes, acreditava no amor. E o amei. E ele, intelectualmente superior, evocando Freud – de quem, aliás, hoje eu sei, ele nada sabia, como sei que ele não sabia nada, seguro de seu saber tamanho – brutalmente me violentou. Não me queixei, nem bati a porta. Saí de leve, sabendo-me nem puta nem neurótica, saí levando comigo a fome do amor que sentia e que queria sentir. Levando comigo a pedra preciosa que é a vontade de para sempre amar. Queixei-me da vida somente quando, muitos anos depois, perdi o terço de contas de pedras brancas do meu pai numa viagem besta de fim de semana de embriaguezes. Mas devo te contar também que roubei o outro terço novo do meu pai, agora de contas azuis, que ainda trago comigo, e que ele fez de conta que não sabia que eu o roubei.
Calei-me por hoje. Wolf disse apenas: humm. E sorriu sem desviar o olhar.

Magda Maria Campos Pinto


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