sábado, 15 de outubro de 2011

NOS TEMPOS DA BRUTALIDADE

2.


O trabalho começava às dezenove horas, hora da troca de plantão. Sempre se acumulava durante o dia; rendia-se um colega exausto, mal humorado, um punhado de papeis na mão, que nos entregava com suspiro profundo, alívio no olhar e um meio sorriso de piedade. Isso, claro, se o colega fosse um companheiro gente boa legal amigo parceiro de esperanças. Que fosse algum membro do clube ‘bobos da corte’. Nem sempre era assim; muitas vezes o colega era adversário, competidor ou um parasita que, propositalmente, colaborava para o caos e o abandono geral. Tipo membro do clube ‘alto clero’. O certo é que o trabalho era imenso, sempre sujo (literalmente, é o que quero dizer, sim, os hospitais sofriam inclusive de falta de faxina... por favor, não ria, nem tire os olhos de mim!), doloroso e, quase sempre, ineficaz. Foi naquele tempo que aprendi o infernal trabalho de Sísifo. Nada é mais cruel que um trabalho infinito e estéril. Mas não perdíamos a esperança, ou a teimosia, não sei. Na juventude, essas coisas se confundem facilmente, e é disso que eu gostaria de lhe falar hoje. Quero me assegurar que a esperança venceu, mas... Olhe pra mim. O trabalho começava na portaria, atravessar um porteiro cansado e indiferente, doentes que não tinham determinado e inútil papel, policiais que estavam sempre ali, fosse trazendo alguém quebrado na brutalidade das ruas, fosse em busca de possíveis opositores do regime, ou de subversivos, como se dizia na época. Havia outro tipo de trabalho a que chamavam ‘remoção’. Nesse caso, acompanhados por enfermeiros – que, de fato, eram homens fortes com ligeiro treinamento para imobilizar pessoas – entrávamos numa ambulância velha e depois de uma constrangedora corrida ruidosa, invadíamos algum lugar onde estivesse alguém a quem tivessem mandado remover para o hospital. Tratava-se de ordem superior; nosso trabalho era buscar o indivíduo e interná-lo. E pronto. O engraçado era que, nesses casos, havia sempre uma vaga; algumas vezes nos apartamentos mais luxuosos do hospital. No caso do atendimento de urgência, em que os próprios indivíduos se reconheciam doentes, quase sempre faltava vaga, e eles restavam ali mesmo, nos corredores ou na portaria, esperando algum milagre que materializasse algum anjo que resolve olhar para eles. Sim, eu não contei os dias, mas contei as noites. Foram oitocentas e noventa e seis noites de plantão ao longo de dez anos de vida, em cinco diferentes hospitais. O problema é que guardo comigo a sensação estranha de que nunca conheci um hospital, e não rio mais da piada que criei pra mim dizendo que me tornei médica para não ficar para sempre num lugar desses. Sim, eu não sabia o que queria, eu fazia o que era preciso fazer, e, se por um lado, tudo foi horror e brutalidade, por outro foram os anos em que eu aprendi o pouco que sei sobre as verdadeiras capacidades dos seres chamados humanos. O tempo todo, embora eu fosse tratada muito bem, respeitada, recebesse um salário de que não podia me queixar, eu me sentia do lado do mal, digo melhor, eu era o bandido do filme. Sim, naquele tempo -, eu já lhe contei isso-, eu me escondia numa sala de cinema, pra mim, uma ilha, um oásis, um abrigo. Ali, no escuro, eu me desmanchava em lágrimas. Posso contar cinco mil e uma histórias, e todas serão surpreendentes, pois lhe garanto: humano é sinônimo de surpresa. Lembro-me agora da Silvia. Esse não era seu nome, ninguém nunca soube seu nome, sua idade, ou qualquer coisa que fosse de Sílvia. Eu decidi chamá-la assim, e ainda não sei lhe dizer por quê. Ela era bonita, uma mulher saudável – eu digo isso? – gorducha, de olhos negros, dentes brancos, pele negra e cabelo crespo. Chegara ao hospital trazida pela polícia havia mais de cinco anos – e agora parecia ter uns dezoito, dezenove. Encontrada na rua, seminua, na chuva, atrapalhando o trânsito: era o que estava escrito em sua ficha. Recusara-se a falar com o policial, com o delegado, o médico, o terapeuta, a enfermagem. Com o mundo, e ficara ali. Não reagia quando a agrediam. Algumas vezes foi encontrada sangrando, e quieta. Chamaram-na Chica, jamais disse sequer uma palavra, e ali estava. Eu a chamei Silvia. E ali estava. Quieta. Sentada. Deitada. Comendo. Tomando banho. Engolindo pílulas. Sílvia era a obediência. Obediência absoluta. Cuidei dela (será justo dizer isso?). Bom, eu a visitei três vezes por semana por cerca de cincos anos. Eu mandava chamá-la, ela vinha, mandava que se sentasse, ela sentava, eu perguntava como estava, se tinha dormido, se estava com fome, se havia algo que gostaria de fazer, se... Silvia não olhava pra mim, nem pra ninguém, nunca olhou. Seu olhar estava sempre dirigido para frente, levava sempre uma atitude soberba. Imóvel; se caminhava o fazia um robô como faz. Quando se sentava, idem. Mandei que a vigiassem dia e noite para surpreender qualquer iniciativa. Nunca houve uma sequer. Silvia não ia ao banheiro, mas evacuava e urinava quando lhe mandavam ir ao banheiro. Silvia dormia quando lhe mandavam dormir. Foi assim por mais de quatro anos. Na ficha de Silvia estava escrito: esquizofrenia catatônica, negativismo passivo. Origem desconhecida.

Certa vez cheguei exausta, desolada, infeliz e raivosa para o plantão noturno. Mandei chamá-la pensando em ter uma boa briga com ela, decidida a fazê-la reagir custasse o que custasse. Eu precisava de ajuda. Quando ela chegou naquela elegância de manequim, sem jamais mover o olhar, aguardando minha próxima ordem, eu desabei. Comecei a falar e falar, vomitando minhas dores. Contei que haviam prendido meu amigo porque ele era comunista. Que o haviam matado. Contei que acontecera uma festa luxuosa e que não haviam me convidado. Disse também que eu queria ir embora, e não sabia para onde. Nesse momento, Silvia levantou-se e saiu. Eu fiquei paralisada por alguns minutos. Corri atrás dela, chamei, gritei, ordenei. Ela voltou para seu quarto, deitou-se na posição que sempre ficava e não mais se moveu. Passei a noite vigiando-a. Ela dormiu e eu não. Pela manhã, abriu os olhos e não se moveu. Cheia de expectativa e ansiedade, eu disse bom dia. Não respondeu. Eu disse como vai? Não respondeu. Eu disse venha comigo. Ela veio. Como antes. Ereta e muda. E eu entendi: era livre em sua vontade de não estar com ninguém. Que direito eu tinha de invadi-la daquela maneira? Silvia continuou obediente. E eu saí do hospital. Estou cansada.

Wolf não se mexeu. Muito tempo depois disse:
- Você continua teimosa. Será que ainda sofre de juventude?

Magda Maria Campos Pinto


(Sísifo, 1548, Tiziano, Museu do Prado, Madrid,Espanha)

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