segunda-feira, 17 de outubro de 2011

NOS TEMPOS DA BRUTALIDADE

3.


Pode acontecer que aquela sua melhor amiga um dia lhe diga ‘não que eu quisesse te magoar, mas me apaixonei por ele’, ah, sim, ele seu namorado, com quem você brigava muito como grandes amantes brigam, ah, sim, a melhor amiga a quem você sempre podia contar tudo. Pode ainda acontecer que no momento da maior dor, quem sempre pediu, talvez exigisse, sua presença diga: ‘você acha que precisa mesmo que eu vá com você?’. Mas não tem importância porque você já conheceu bem a vida, cresceu, amadureceu faz tempo, só não esperava que depois de você pedir, explicar, demonstrar, implorar, dizer não quero, não permito, não perdoarei nunca, ouvir ‘eu vou, eu corro o risco’, frase que apenas recorda aquele tempo em que te seduziram dizendo que você era boa no que fazia, e você, feliz e mais grata que devia, até a hora que alguém chegou pra lhe dizer ‘esperávamos que você fizesse oitenta e você fez dois’, mesmo que você estivesse fazendo o melhor, e tanto, e quanto, talvez jamais tivera feito. E que você não se esqueça daquele que ganhou de você tudo o que se pode dar a alguém, e era tanto, e tão seguro, que foi buscar lá fora, mais alguém, mais alguéns, pois a vida é muito chata quando existe rotina. Inclusive rotina de entrega. E pode ser que sua mãe minta, esqueça e fuja. E que o sol nasça e você perceba que a noite não foi embora, pois as trevas que te envolveram continuam. E que não te paguem – de fato nem agradeçam o que te devem – e cobrem – com juros, é claro – o que você não deve. E digam que você se basta, que você tem sorte, tem tudo, e te peçam mais. E caso não tenha, é porque você é arrogante, e muito egoísta.
Trombetas apocalípticas te constituíram: fim dos tempos, ao qual você resistiu, recusou e enfrentou. Tornou-se uma pessoa correta, de princípios e competente. Por fim, resignada, entregou-se para julgamento. E mais uma vez, pode ser que fujam. Nem julgada você será. A sentença já fora dada no princípio: não haveria escuta. Voz que, sendo sussurros, murmúrios, insinuações, você preferiu não ouvir. Agora não adianta gritar. Primeiro porque não sabe, segundo porque os destinos são dados no começo; a nós cabe apenas aprender a ler. Ou melhor, a ouvir. Quer ver? Escuta. Dizia meu pai. Eu não ouvi.
Wolf resmungou. Eu disse:
- Drenarei o abscesso.
Ele respondeu:
- Vou aguentar.

Magda Maria Campos Pinto 

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