terça-feira, 18 de outubro de 2011

NOS TEMPOS DA BRUTALIDADE

4.

Sobrevivemos. Ao espaço, ao tempo, à guerra, ao esquecimento. Vergonhosamente sobrevivemos. Chegamos à intemporalidade imoral do mercado. E aquela moça linda, bem maquiada, cheirosa, maquinalmente expressiva em seu texto muito bem decorado quer lhe contar que vende o produto perfeito, barato – o melhor preço do mercado - e deste tamaninho: sim, do tamanho de um comprimido. Nada mais nada menos que a própria felicidade. Uma pílula por dia. Nenhum efeito colateral, apenas a felicidade garantida. Só um mínimo problema: aquele moço bonito, elegante, perfumado, automaticamente gentil, também quer lhe vender outro produto perfeito. O texto é o mesmo, tão bem decorado quanto. O produto é completamente diferente: mais que perfeito, mais barato – o melhor preço do mercado – e menor que deste tamaninho: sim, metade daquele comprimido. Mas o resultado é maior, sim, muito mais felicidade. Dia e noite felizes. Mas tem um pequeno probleminha, aquela mocinha linda, bem maquiada, tem...
- Não sei se aguentarei...
- Vou terminar. Apenas entenda que agora as pessoas estão vendendo o melhor preço do mercado, que sobrevivemos para...
- Não, sobrevivemos pra reinventar a felicidade.
- Qual é o preço?
- A alma.

Magda Maria Campos Pinto

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